Te amo mais que agosto e aquela canção…

Às vezes me dá um tristinho dentro do coração porque escrevi sobre uma música em algum desses agostos a que que me apego tanto – seja pela dificuldade em crescer, em se desenrolar, em acontecer; seja porque talvez esse seja o refrão dos que reclamam de agosto ser um mês lento e, na contramão da coisa, eu vou amando agosto eescrevendo pra ele toda vez que chega o dia primeiro…

Enfim, no último agosto de 2018, meu coração batia bonito feito a trilha sonora de A Teoria de Tudo, especialmente Cambridge, 1963 que eu ouvia num loop infinito maior que o dito cujoA canção cresce , ela parece a flor do mandacaru anunciando chuva… dá uma felicidade e um espanto.

Mas ela também foi a canção que fez parar no tempo a saudade da minha cachorrinha Olívia… uma dálmata cujo temperamento era parecido ao meu e a gente tinha mania de correr e tb de parar, lamber a vida e não fazer nada do que esperavam de nós.

Tinha um dvd do Mozart no chão e uma rosa que eu esperava secar pra colar em alguma página de livro. No tablet tocava “Cambridge, 1963” e eu vi a luz ficar bonita, a rosa e a imagem vitoriana daquela arrumação no chão…quando a música cresce nos 50s, a Olívia cheira a rosa e a abocanha delicadamente. Eu sempre vou lembrar dessa cena, mais bonita que qualquer filme do Wes Wenderson…a fotografia barroca , a trilha sonora de nossas vidas…

Às vezes dá um tristinho porque eu lembro da Olívia e porque mesmo acelerada da estrela, eu crescia no afoitamento ouvindo música. Acelerada, é bonito me ver falando das coisas, parece que recebi uma injeção de pessoa apaixonada…e em vez de me perder, porque “a pressa é inimiga da perfeição”, fico mil vezes mais suscetível a perceber tudo. É bom, mas pesa.

Eu adoro ouvir música. Sou apaixonada por sons – do silêncio, passando pelo alho e cebola no azeite, as panelas numa cozinha hiperativa, o glub glub do café na italiana…ao mini show de percussão que eu dou em qualquer lugar – porque o batuque pode me ajudar a pensar, e tb porque me faz olhar (é uma estratégia para que eu fique atenta)…

No início da quarentena eu fiquei tão depressiva que não conseguia ouvir música, comer e nem tomar café… Teve um dia que eu coloquei Beatriz, na voz do Milton, e chorei tanto que experimentei uma enxaqueca fortíssima por uns dois dias.

Música me leva pra vários lugares…e eles são infinitos aqui dentro...

Me dá essa pequena dor por essas coisas que eu não soube explicar direito, mas é porque teve uma música tocando num agosto, teve a Olívia nesse filme bonito, teve isso de a gente não conseguir fazer o que gosta…e tem essa comparação de achar que esperar não é fazer…que estar mais calma é perder a paixão…acho que não é só tdah, é meio capitalista isso de que produzir é movimento… e de que agosto não serve presse modelo

Mas, em defesa do meu coração apaixonado e acelerado, eu ouço música nesse agosto…tenho ouvido as folhas das palmeiras, o sotaque Maranhense reclamando das queimadas, dos potós e do calor…Ontem mesmo ouvi as cascas do alho roçando umas nas outras na caixa na frutaria… tenho ouvido besouros tentando se desvirar… Isso é música…

O dodói no peito é só porque as marcas das unhas da Olívia no guarda-roupa ainda estão lá, mas eu não ouço mais o fungado dela me acordando, o corpo pesado correndo pela casa… tem uma falta aqui…

Eu te amo mais que agosto, mais que café, mais que qualquer música do Chico, mais que os olhos dele, do que a voz do Milton, do que estar acelerada, do que estar mais pausada, do que o comprimido de ritalina, do que alho no azeite, do que os 50s daquela canção...

Sódáde apertada de ti…

8 comentários em “Te amo mais que agosto e aquela canção…

  1. Algumas coisas me dói também… saudades da minha Meg, que era uma vira lata, outras saudades também…
    Mas a vida segue e devemos viver cada minuto.
    Adoro a maneira que escreve, moça!
    Abraço

    Curtido por 2 pessoas

      1. Moça, quem “tem” um companheiro como um cão (na verdade, são eles que nos tem), tem coragem de amar e ser amado, apesar da “finitude” no tempo. Como se percebe, é algo que fica para sempre. A saudade doe. Mas poderia ser pior: não ter do que sentir falta.

        Curtido por 1 pessoa

      2. É verdade. Lembrei que minha mãe nunca deixou eu ter um cachorro e quando tive minha casa, ganhei a minha Olívia….foram muitas mudanças num ano, mas a melhor de todas foi a chegada dela…e ela me amava muito…

        Curtido por 1 pessoa

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