Eu vou botar meu bloco na rua

Mapas malucos em muros úmidos. Bolhas num adesivo.

Dedo cortado por uma página.

O espanto é um bairro no olhar do meu filho.

“Não se salva um navio não o construindo.”

Cicatrizes mudas no braile do carinho.

As janelas dos carros fatiando meu reflexo.

Um esguicho de música no cofre do ouvido.

– Marcelo Montenegro, in Forte Apache
Pindaré, beira-rio, no Maranhão
Bloquinhos empilhados na mesa do quarto

No muro do quintal, pintada de rosa, a frase: “Tudo que não é literatura me aborrece”. A mão aperta o pé da barriga porque as cólicas estão cada vez mais acentuadas. Ela sorri enfiando a colher no pote de cappuccino em pó porque lembra do Twitter que diz que é só bater a vontade de ouvir Tim Bernardes, já sabe que a menstruação tá bem aí…As vezes dá vontade de passar pano na casa inteira com água sanitária e também lavar roupa na mão, lá no quintal. Desde que a enchente quebrou a máquina de lavar, ela tem gostado de passar tempo debaixo da casinha no quintal e esfregar as roupas enquanto olha os formatos das nuvens no céu. De vez em quando fica mais atenta à Maria Bola no telhado. Um gato com a cara estranha para no meio do muro, olha por alguns segundos e atravessa pro terreno ao lado. Então ela lembrou que ia pesquisar sobre as espécies de urubu. Parece que no mundo só existem sete. Aquele compromisso de sempre registrar o final da tarde foi substituído pelo hiperfoco do mês, desenhar e aquarelar xícaras: você tem que se envolver em atividades que não estejam exatamente dentro daquilo que te faz entrar nesse turbilhão de pensamentos. Vai pintar, fazer suas artes com argila, cimento…reformar algum móvel...nada com letras…nem pintar frases

Ela acha ótima a ideia. Aliás, havia diminuído mais a frequência com que entrava na internet e lia as notícias. Mas daí a ter vontade de pintar algo, reformar, ainda era preciso que houvesse o mínimo de dopamina. A médica havia combinado de passar a receita especial na terceira semana de maio. Ela teve fé. Adora recomeços e agora sabe que eles são tipo curtida em post, chocolate, panqueca com compota de frutas no meio da tarde e os vários copos de café: pequenas doses de neuroquímicos, de recompensas, escapismos, fulga, bandaids. Aperta os dentes, espreita por cima do muro e decide que vai finalmente pedir à vizinha algumas acerolas, elas são a melhor vitamina c. O vestido que antes dançava conforme ela andava, agora se agarra ao corpo e isso não importa porque o mundo já vai acabar. E isso não importa porque vestido junto ao peito é bonito. E isso não importa porque o vestido tem a estampa perfeita. E isso não importa porque o vestido tem o cheiro de cômoda e alfazema. Enfia outra colher no pó de cappuccino e pára na soleira olhando pro muro e os musgos secos…os desenhos que eles fazem lembram o trecho do poema: Mapas malucos em muros úmidos

Pensa de novo: urtigas se cozidas podem ser comidas. Aperta a barriga mais uma vez e dá replay em Tim Bernardes.

A menstruação desceu

2 comentários em “Eu vou botar meu bloco na rua

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