Receita de sonhos ao molho de tomate

Se fosse um filme, teria a mesma paleta daquele francês verde e vermelho da menina que diz que “são tempos difíceis para sonhadores”. São pequenas e privilegiadas satisfações no meio da pandemia: puxar um galhinho de manjericão da própria horta sem agredir os gafanhotos que decidiram fazer morada ali.

Entre ficar deprimida o dia todo, rejeitar pedido de reuniões via zoom e a luta pra me adaptar à nova dosagem da medicação, eu deixo dois gafanhotos comerem meu manjericão. Também saio procurando aranhas Maria Bola pra fotografar no quintal e fico de olho nas pequeninas papa moscas. Às vezes eu mudo um pouco a rotina dos pequenos privilégios e fico ruminando o fato de que me empenhei tanto no início da pandemia pra cuidar de tanta gente e de repente fiquei mais disfuncional e precisei me ausentar. Parece egoísmo precisar se ausentar justo agora…

Não faço mais pão porque o calor chegou e minha cozinha é um forno impossível…tenho sonhado mais com sorvete do que qualquer outra coisa. Fico tentando carregar a memória com as informações do sorvete de coco na casquinha que a gente só encontra em São Luís. Ano passado, moradessa, as padarias já estariam exibindo os bolos de junho (mas que aqui onde moro a gente tem o ano todo) e a rotina desse mês seria mais ou menos como festival de coisas do que se pode fazer com milho…lá em São Luís as ruas ficam coloridas…a gente tá aqui e de repente ouve ônibus e gente chegando e daí a vizinha contratou uma quadrilha ou uma grupo de boi pra se apresentar na rua. Cansei de acordar às quatro da manhã com o boi da Pindoba chegando e fazendo fogueira pra esquentar o couro dos pandeiros. Boi de matraca é um sotaque que a gente sente lá no fundo. A Helena Leite acordava metade do Monte Castelo e eu gostava de ver o movimento da sacada de casa.

Acho que a gente faz pratos quentes no meio do mês quente aqui no Nordeste é porque tá no sangue…a gente toma café quente meio dia…ninguém precisa da justificativa de estar frio pra essas coisas. Canja, sopa, cozidos…não tem o contraste…não tem a comida do inverno… Se eu quero contraste, eu leio Tolstoi e o inverno russo em pleno verão. O que eu sei é que é tempo de milho, de jambo, de calçadas rosas…

Isso que vamos lembrando nos sonhos, sem querer… não pra estar omisso, mas porque aparecem pra nós e se ressignificam, é o que parte de dentro dessa panela com bolinhas de carne no molho de tomate…

Eu mexo algumas vezes, ralo queijo e coloco as folhas de manjericão…

Uma paz que nem todos podem ter. Um tempo que nem todo mundo pode desfrutar e sonhos que saem de dentro da panela que muitos têm. Meus olhos se enchem d’água como sempre e alguém pergunta pelo meu chôro… eu faço uma oração baixinho…”São  tempos difíceis para sonhadores”…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s