Aos meus oito anos e o disco da Gal

Eu conheci Gal… tinha uns oito anos de idade e uma curiosidade absurda. Nos anos 90 a gente ficava em casa sozinha e não abria porta para estranhos. Eu ouvia os discos da minha mãe enquanto explorava a casa. Uma das coisas que gostava de fazer era entrar no escritório do meu pai e mexer nas canetas e réguas diferentes da mesa de desenho. Abria uns livros de construção civil que até hoje existem e procurava evidências de que houve vida por ali. Me intrigavam as dedicatórias e lembro até hoje de um livro do Padre Mohana. Gostava de guardar os recibos que achava pras minhas brincadeiras de secretária. Ainda pequena eu amava acumular papeis e tava sempre empunhando uma caneta bic.

Eu gostava da Gal, da voz dela, e de como ela me parecia dramática de um jeito delicado e era delicado também o que eu fazia ali, explorar a casa, ver objetos de perto, como se estivesse sendo apresentada a mundos novos o tempo inteiro. Eu gostava do cabelo da Gal e de como parecia com o meu e de como tinha volume e isso era bom…

Às vezes a gente não precisa, a gente só acha. O poeta diz que imperativo é navegar…mas ele falava de certezas…só que já se sabe que nem 2020 foi preciso como se achou que ia ser…e ele tá aí, o mundo tá feio, muito feio, algumas pessoas são terríveis…mas ainda tem gente bonita e com a alma justa, honesta. Eu achava que estava mais ou menos segura lá naqueles mil novecentos e noventa e tanto…porque desde que eu não abrisse a porta para estranhos, não me meteria em encrencas…Mas o tempo passa e a vida nos alcança e nada é tão simples.

Eu lembro de olhar pros meus pais que falavam muito da poupança, de Collor e aumentavam o volume da tevê… Eu gostava de brincar com os papéis que pegava na caixa econômica quando ia com a minha mãe e a única coisa que sei sobre esse tempo é que eu queria ser uma boa menina porque meus pais estavam tensos, então eu não podia tirar notas baixas na escola, nem arranhar o disco da Gal.

Quais são as coisas de que realmente precisamos? Quando eu tinha oito anos era só que os meus pais saíssem pra trabalhar e me deixassem sozinha p/ eu colocar o disco da Gal e explorar a casa…talvez eu precise ter oito anos de novo no meio de 2020…ou tomar um sorvete…mas o mundo não será mais o mesmo e nem deveria… porque o que há de terrível precisa mudar…

E nós não vivemos na melhor cidade da América do Sul

14 comentários em “Aos meus oito anos e o disco da Gal

  1. Bons tempos,né?Apesar que essa parte econômica da época foi ruim…Eu era mocinha nos anos 90,tinha os desafios da época,essas preocupações econômicas ficavam com meus pais,apesar que dava para acompanhar a tensão da época,o plano econômico,os políticos como sempre prejudicando o povo…Mas acho que antigamente os dias tinham “mais molho”,as décadas foram passando e parece que o mundo ficou mais pesado,mais vazio,mais sério,mais triste.Eu estava lembrando com meu pai outro dia,quando eu era criança,fui com meus pais ver de perto as antenas das emissoras de tv.Já tem vários anos que nem dá para pensar em ir de novo porque ficou inviável,não tem mais como,é perigoso só de pensar.Ir ver as antenas de tv hoje em dia nem dá,é morte na certa,no meio do caminho.E muitos outros lugares aqui que até pouco tempo ainda dava para ir,passear e não se pode mais.Nesse caso das antenas de tv,quando eu fui com meus pais,eu era criança nos anos 80,aí já tem mais tempo.Tá,cada época tem seus desafios mas não dá para negar que o tempo foi passando e muitas coisas ficaram complicadas.Ao mesmo tempo,esse vírus trouxe de volta o drive-in.Ah,amiga…Tenho saudade de muitas coisas dos anos 80,90,até dos primeiros anos de 2000.As músicas eram mais gostosas.Muitas coisas eram mais gostosas.Tudo bem que temos a Internet hoje em dia,mas e a leveza dos dias de antigamente?Muitos dizem que é porque o povo não tinha acesso às informações,como hoje em dia.Mas não…O ar era mais leve…E não falo do ar que respiramos.Uma vez vi uns rapazes conversando sobre balas que eles gostavam de comer.Verdade!Olha…Eu era feliz.E sabia.

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    1. Amei tudo que vc escreveu! Acho que tem mt coisa boa, muitas conquistas, muita luta que faz agpra ser bom tb…Tinha uma certa calma la atrás, mas tb tinha muito silencio imposto, muita coisa era boa e outras apenas pareciam boas… mas tb tem isso q vc disse, a gt acaba desembocando num mundo em que somos mais capazes de ver o que há de horrendo e isso nos deixa tristes. Mas se a gt é capaz de se comover e nos mover, pelo menos isso ja é bom, pq tem muita gt aí q não ta nem ligando!

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      1. Que bom,querida.Estava tão preocupada que tivesse te chateado.É,vc está certa,também acho que cada época tem coisas boas e muitas ruins,problemas de antigamente que faziam as pessoas sofrerem hoje já foram resolvidos ou pelo menos a sociedade de hoje em dia já aceita com mais facilidade.Mas ainda fico com saudade de varias coisas de antigamente.Não sei se no futuro a geração que está nascendo agora vai sentir saudade!Kkk!

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      1. Que bom,realmente fiquei muito feliz que vc gostou,estava mesmo preocupada porque acabo fazendo comentário gigantesco,também fiquei preocupada de vc não ter gostado.Mas acabo escrevendo como digo,com o coração,é inevitável.E acho que vc também escreve com o coração.Eu também gosto de visitar seu site,sempre que puder passarei aqui.Também gosto muito de te ver lá no blog.Valeu a sua visita,amiga!

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  2. Moça, a quanto tempo! Antes de começar a ouvir mais assiduamente os artistas de fora, ouvia música brasileira, preferencialmente. Quando surgiu Gal e os novos baianos – Gil, Caetano, Maria Bethânia, Os Novos Baianos, Tom Zé – logo assaltaram o meu coração. Mesmo novinho, não tinha como não amá-los! E Gal era uma gata de pernas longas, cabelo desgrenhado, com voz e afinação impecável. Viúvo de Elis, a elegi como a minha favorita. O seu texto? Saboroso como sempre me recordo. Abração!

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