Eu moraria na voz da Mônica Salmaso

Massaud Moisés ao sol

Eu costumo falar dum lugar que é o sertão, e aqui, conforme prefetizado por Antônio Conselheiro, ele virou mar. Não sei se março ou abril, mas a bola de pilates flutuava no meio da casa enquanto eu olhava pro jardim de inverno pra saber se ele iria virar um imenso aquário como no filme do Guilhermo del Toro, só que sem aquela paleta de cores. As baratas se amontoavam nas paredes, nenhuma de procedência Kafkaniana. Meus discos estavam a salvo, eles já atravessaram todo tipo de tempo, eram mais resistentes do que Vênus no céu no mês de Abril. Eu não me preocupei com as perdas materiais, só não queria ter que explicar pra ninguém… e também porque tenho dificuldade em colocar as coisas na perspectiva correta. Acho trabalhoso falar do caos … minha cabeça ficou presa na visão da água entrando pela frente e pelo quintal. Tem um vídeo em que eu sorrio e pego o Massaud Moisés do chão. Achei que logo mais na manhã faria um sol daqueles e eu antevia a foto do livro pendurado no quintal e que daria uma cena bem devagar como num filme do Terrence Malick.

Depois eu comecei a fazer pão, como todo mundo. Tenho um certo orgulho em não seguir as receitas porque sempre estamos num timing diferente: elas terrivelmente vagarosas e eu horrivelmente acelerada…mas o pão, que é uma comida tão bonita, ficou fotogênico e gostoso.

Nao sei exatamente a ordem dos acontecimentos, mas eu fiquei muito triste – várias vezes -, e muito feliz noutras, e também muito alheia. Algumas coisas estavam imensuravelmente doloridas, como ouvir Milton cantar Beatriz…eu nunca vou saber porque ficou tão difícil fazer coisas que antes eram prazerosas. Às vezes eu vou presse lugar estranho e lá não tem música. E eu me fecho. Ainda assim, que vergonha em dizer que coisas bonitas aconteceram. Eu fiscalizei o céu por vários fins de tarde e esperei Vênus chegar. Vi as duas luas em perigeu e pesquisei muito sobre anãs brancas e nebulosas…

Vênus visível por todo Abril no final da tarde
Céu do meu quintal

Li bastante Foucault e terminei um TCC. Não vi nenhum filme. Tenho dois pés de manjericão enormes e lindos. Comecei a estudar sobre insetos e a catalogar as fotos que fiz dos meus celulares velhinhos. Sonhei várias vezes com aranhas e pingo três gotinhas de óleo de copaíba na cabeça antes de dormir. Decidi que minha cantora favorita é a Mônica Salmaso. Chorei quando Aldir Blanc nos deixou. Corri pra abrir a página do último livro que eu li dele em que eu marcava uma frase que dizia “que ninguém ouve Louis Armstrong impunemente”. Folheei algumas letras que copiei no caderno enquanto ouvia Guinga…Não gosto que as pessoas sejam intrusivas…Também não gosto de leite. Em meio a tudo isso deu pra movimentar amigos, ligar pra ajudar com alimentação, remédios, choro, ombro…Daí a covid chegou perto do peito…Eu tô aqui no sertão e eu não falo de tudo. É duro como o chão na estiagem.

Minha foto favorita de uma lagarta atravessando o pátio e carregando o fardo que é ser bonita com essa meia dúzia de pingos d’água na costa
Plantei alho em algum momento dessa vida
“Num dia azul de verão, sinto o vento
E há folhas no meu coração, é o tempo”
Acompanhei a chegada de comedores de folhas de manjericão
O óculos de Pessoa, a xícara de Virgínia, o baixo de Mingus e a ordem para virar poema sempre que puder

“Mas o que há, enfim, de tão perigoso no fato de as pessoas falarem e de seus discursos proliferarem indefinidamente? Onde, afinal, está o perigo? “

– Foucault

Tem um quadrinho em um dos quartos da casa e ele diz: be a poem. E até hoje eu não sei se nasci pra passarinho, como disse o Manoel, ou se já alcancei esse estado de poesia. Alguém me disse que era impossível que existam pessoas que não gostem de mim. Eu disse que tinha sim, porque a gente não vai estar lá pra todo mundo, do jeito como todos gostariam. E tem também as coisas que falamos sem querer e as coisas que ficam sem explicação…Daí essa mesma pessoa falou que eu sempre busco um jeito de me punir por achar que não dou conta de preencher as expectativas dos outros. E que eu não deveria achar que tenho esse dever…Foi uma tarde existencialista e filosófica, mas eu fiquei pensando no perdão.

Teve também eu lutando contra as fake news, lutando contra um rato de esgoto e quando finalmente a ratoeira o pegou, ele se arrastava porque as pernas de trás tinham quebrado. Nesse dia eu chorei. Mas não escrevi nenhum poema simbolista, nada Baudelariano.

Fiz geleia, mas parecia um filme do Bergman

Sempre que se pode respirar, eu corro pro quintal e uma das coisas mais bonitas nos dias bonitos tem sido ver uma árvore seca num quintal atrás. Ela deixa o céu mais quadro impressionista e eu me dou conta de que talvez tenha fotografias dela de todos os jeitos. Nessas horas minha mente dá uma acalmada e as dez divertidamente que moram no meu cérebro parece que sentam em algum lugar pra buscar receitas de dumplings chineses.

“Eu sou você que se vai no sumidouro do espelho…”

– Aldir Blanc

Quando o sol entra pela cozinha, talvez seja assim a trilha sonora das coisas inanimadas
Separei pastinha de fotos de bichos que fiz com o celular ao longo de alguns anos

Às vezes eu tenho febre tal qual uma personagem de romance realista, mas é meu corpo reagindo ao fato de que sou emocionalmente desregulada e em alguns dias disfuncional. Em 2019 eu quis experimentar um ano sem medicações, só pra lembrar quem eu era… Mas aí tem aquela frase da Alice no país das maravilhas de que nós mudamos muitas vezes todos os dias e tal. Larguei o mestrado, a bolsa e já tenho essa pequena biografia da menina de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Acho engraçado quem fica, quem tá do nosso lado, quem busca água e dá remédio na boca. Essas pessoas, elas são mais do que os filmes mostram…e como eu acho a voz da Mônica Salmaso o que pode existir de mais bonito por essas terras, eu dedico pras pessoas que me amam todas as canções da Mônica…elas não vão ler isso aqui… por que não é meme, eu alcanço esse nível de estranheza…

Amo e odeio que pareça um diário…mas, na verdade, é uma crônica…como diz o Chico César são os meus sertões…

Att,

Brinco de pérola