Para o velho Gabo

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo”

Gabriel Garcia Marquez

Eu ia começar te dizendo pra tu me “devolver o Neruda que você me tomou e nunca leu”, só pra citar Chico Buarque e iniciar uma carta com uma frase tão potente quanto aquela tua no livro da vida e da solidão. Mas essa não é uma carta de amor, não do jeito que todos os Aurelianos e Josés Arcadios e Amarantas e Rebecas amam…maybe.

Gabo, eu te li em quase toda as sobras de tardes, todos os remendos entre uma coisa ou outra aqui no meio do sertão do meu sertão. É que às vezes tenho sertão em mim e aprendi, na música do outro Chico (o César), que pode ser uma coisa boa essa aridez porque dá pra alguém viver em estado de poesia no simples contato com o nosso assovio – que é como sentar na porta de casa e ver a flor do mandacaru se abrir anunciando a nova estação. Eu nem vou te explicar como por aqui a gente só tem dois tipos de estações e mesmo assim parece tão difícil falar cientificamente que mesmo estando no verão chove todos os dias…mas há quem diga que é só uma questão linguística, afinal, enfrentamos o maior inverno desde a fundação de Macondo.

Eu não vou te remendar, nem de dar uma reprimenda, muito menos te bloquear, ou te castigar secretamente por teres copiado todas as coisas que eu te contava e teres transformado a aventura silenciosa da minha cabeça num texto sobre solidão…porque, meu amigo, faz muito tempo que eu não me agarro a um livro desse jeito…tanto que fiz sanduíche simples de queijo com presunto igual ao que fazia todas as vezes em que chegava da escola pra ler o meu Tolstoi e era verão na ilha – eu lembro. Eu poderia te contar algumas coisas que tenho percebido nessa minha olhada rápida que atravessa as coisas…e eu sei que foi desse meu poder secreto que tu roubou a inspiração para quando Aureliano sabia de tudo de antemão. Mas, Gabo, nem tudo eu sei…eu apenas acho com muita força que sei que sei (“Fortis imaginatio generat casum” – Forte imaginação produz acontecimento)…e José Arcadío Buendia disse certa vez: o essencial é não perder a orientação.

Eu fiquei presa nessa frase porque há muito tempo sinto a tua falta e uma das coisas que queria que tu desse nome era pra isso que acontece entre o último dia que te vi na cozinha dos meus pais e agora…Lembra quando eu te dizia: “o que tá acontecendo é isso”…e tu me olhava e fingia não acreditar que eu sabia com exatidão da explicação mágica por detrás da vida?…e isso pode ser uma bênção e uma maldição. Agora eu tenho tanto poder em mentalizar que me machuco. Daí tu inventou uma criatura que também tinha algo nas mãos e não soube usá-lo. Eu quero saber se isso é uma provocação?!!! Porque eu tô cansada de perceber punições aqui acolá como se eu fosse a máquina por detrás (roubei essa de algum poeta português) de todos os horrores. De ti eu não aceito nenhuma dessas homenagens…E eu sei que nenhum de nós foi como uma Úrsula nessas questões…não nos aconselhamos bem porque sacolejando aquele vidro de laboratório criou-se um José Arcadío e Melquíades numa alquimia mais mortal do que a solidão.

Gabo, por que José Arcadío enlouqueceu se tudo de que precisamos é de uma “desatada imaginação” para resistir nesse mundo em que há gelo gigante derretendo, o mércurio é proibido (exceto na poesia de Matilde Campilho), o cinema cobra caro e se voltou a espalhar por aí que a a terra não é redonda como uma laranja? Não responde, no fundo eu sei. Agora, e é bom esclarecer que escrevo de 2023, preciso correr pra colocar a roupa no varal…sobra um pouco de sol…antes, quero te falar o seguinte: o mundo não parece mais o mesmo, ainda que já se tenha lido essa mesma página vez após vez na história…Macondo está em guerra de novo…e as coisas andam tão ruins que é difícil nomear, sequer há força para apontar com o dedo. O que foi que tu fez, Gabo? Dessa vez, o que foi que tu fez? Escreve ao menos para mim e me diz: não são somente cem anos de solidão não, num é?

Para um latino-Americano com a imaginação mais desatada que José Arcadío Buendía

de sua amiga da juventude, na mesa da cozinha e luz amarela

P.s = Muitos anos depois serei eu quem te fuzilará num poema e tu vais lembrar, não do gelo espalhado na terra, mas desse apreço…Obrigada, Gabo…Melquíades disse que “a ciência eliminou as distâncias”, mas, na verdade, foi a Literatura…ela nos aproximou de novo.

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