Frame de cinema ou Beatriz na voz do Milton

” A veces tan triste

a veces muerta de risa

A veces loca”

Julio Cortázar

1

Uma personagem de Clarice que todo início de ano consulta a ginecologista, a reumatologista e faz terapia por seis meses. Em todas as cenas ela usa macacão jeans, o único que ainda cabe nas pernas roliças, seis kilos e alguns churros a mais. Se fosse um filme do Almodóvar, cada frame seria tomado por uma frase existencialista copiada de alguma dessas páginas de filosofia da internet e ela continuaria não penteando o cabelo. Prum filme Almodóvar, tudo deve ser selvagem, vermelho, intenso como a frase do longa do Kleber Mendonça: Toca Bethânia e mostra que tu é intensa.


COMO NASCEM AS ATRIZES FRANCESAS

Na cena ela caminha pela sala descalça. Havia prometido que a partir dos 33 anos pintaria as unhas de azul mais vezes. Ela decide por um disco da Bethânia na vitrolinha que leva o mesmo nome.

Tocava “Fera Ferida” e ela recordou que essa era a canção favorita naquele disco. Na casa da mãe dava pra ouvir vinil deitada no chão da sala, olhando pro teto, colecionando as proprias frases de efeito famosas. Mais tarde ela veria essa mesma cena num oufro filme: An Education. Ela gosta quando os diretores, sem pedir permissão, fazem remake da vida dela, especialmente dos filmes que ama.

Ela também gosta de ouvir música francesa, do mesmo modo como escolheu a Anna Karina, a muda do Godard, pra ser o avatar favorito. E acha bonito falar “Nouvelle Vague”. O Truffaut colocaria aqui um vinho pra dar um close na boca encostando na taça, mas o filme é meu e prefiro que ela beba gym tônica porque acabou de ler ” O grande Gatsby”… e Deus sabe como ela ama sucumbir a uma modinha literária. Antes, bebia vinho porque parecia mais com poesia, daí achou que rum acompanhava melhor as leituras distantes que fazia…


O caderno-diário com o desenho do “Carcará do João do Vale” na capa

No primeiro dia desse ano com jeito de filme de ficção científica, eu olhava pra todos os lados, de dentro de um carro, já exausta de ser feliz no feriado. Do outro lado da pista, mais veloz que a luz, eu vi um carro desgovernado. Ele fez um desenho no trajeto, invadiu o canteiro, atravessou a nossa mão, bateu no nosso carro e capotou. Eu vi tudo acontecer, frame por frame, e tive tempo de narrar na mente que aquilo era real demais e mesmo assim ” não poderia estar acontecendo”. Segundos antes de colidir conosco eu ainda pude torcer pra que não desse tempo do encontro e que a gente conseguisse avançar mais rápido, como num vídeo cassete que a gente apertava o botão, mas era mais por gostar do barulho (sempre amei mixagem de som).

O barulho de dois carros se encontrando é uma cena de terror…não é belo mesmo se fosse uma trilha sonora de Hans Zimmer.

Eu nem contei direito pros meus pais que é assim que as atrizes em ascensão morrem. Contei, como se tivesse numa cena em que precisasse atuar uma persona Blasé, que um bêbado havia batido em nós, bebi dois goles da água que eu segurava, me virei e dormi. Também não pensei na morte e nessas coisas todas que acontecem em filmes: esta não é uma história de superação. Mas isso me fez pensar que, como ansiosa crônica com hábitos esquisitos, desde a ter pavor de avião ate a procurar evidências de doenças sérias no corpo, um carro invadindo a outra mão foi a neurose mais estranha tomando forma. Eu prefiro que todas as minhas invencionices fiquem apenas no plano das ideias malucas. Um lugar, uma caixinha que guarde pensamentos estranhos e, não, não sou adepta de plot twists com a carga dramática de um filme de terror. Mas, afinal, por que uma neurose seria a culpada por um antagonista bêbado invadindo a minha cena e tomando a minha fala?


Um rosto

É bem Godard dar close no rosto. Eu gosto de cenas com rosto. O meu, desde o ano que passou, ganhou um generoso preenchimento de gordura advinda das vezes em que eu disse que era a última pizza. Como eu disse, estranho demais isso de falar em fazer algo pela última vez. Mas se esse é um filme um pouco autobiográfico, exceto pelo fato de que o macacão jeans não passa mais nas pernas, o enredo se eterniza. É como assistir Titanic mil vezes ou aquele filme dos Ets chegando no planeta e uma linguista salvando a humanidade. A gente volta praquilo que nos dá paz. E eu gosto de descansar nos filmes do Bergman com o copo de chá gelado na mão, deitada numa cadeira de sol, num quintal que dá pruma praia daquelas bem tristes. Tudo em preto e branco até que o Bergman inclua na cena uma metáfora.

BASTIDORES

Eu queria mesmo era ser a Greta Gerwig que contou a história das mulheres no cinema. Eu chorei com a Jo March jogada no chão escrevendo aquele que seria o seu romance de estreia e reunindo no peito uma coleção, o maior número de vontades que uma mulher pode ter. Eu li Adelia Prado bem rápido ontem, aquele mesmo poema que encontrei aos 14 anos e não tive a menor ideia do que carregava consigo, mas eu sentia que era comigo que ela falava: “mulher é desdobrável, eu sou”.

LETRINHAS PEQUENAS SUBINDO NA TELA

PATTERSON – Um filme com o Adam Driver sobre o qual eu nao tive competência para escrever.

Patterson (Adam Driver) mora em Patterson e é um motorista de ônibus e poeta. Ele escreve a partir do que vive, como todos nós roteiristas e escritores de blogues (que somos essa categoria apaixonada pelo editor de textos). A esposa é a musa para quem dedica suas poesias escritas pela manhã no banco do ônibus antes de partir, e também nos intervalos do almoço. Uma caixa de fósforos, as conversas entre os frequentadores da linha, tudo atravessa a poesia.

Patterson é um filme lindo sobre como nascem um escritor e a poesia.

INVERNO – Eu acho que é inverno no Maranhão. Nesse movimento pendular entre o interior e ilha botei reparo na quantidade de chuva. Chove menos e mais devagar no sertão. A chuva é mais Almodóvar no litoral e aqui elas são aqueles filmes independentes de festival. Fico insanamente dividida entre as duas estéticas, mas confesso que ver as mangueiras fazerem desenhos em sombra no céu faz a gente ter borboletas no estômago e arrepia até a nuca. Houve dias em que foi possível vestir algo mais grosso que um vestidinho de algodão…Decerto que ninguém fica nas portas e as ruas que ainda nao receberam asfalto se enlameiam todas. As estradas, antes num tom amarelo-ocre, ganham tonalidades de verde. As hortas estão repletas de cebolinha e cheiro verde. Se sobrou feijão, o frio fica mais gostoso, corta a cebolinha e espalha por cima.

FEVEREIRO – Fevereiro eu vou crescer mais um pouco na direção de virar um Fado do Porto. As minhas manchas de sarda que antes quase nunca pousavam pra foto, viraram pequenas ilhas no meu rosto. Tomara que dê pra ir de barco até lá.

A rotina de pele e esses cronogramas de beleza que sempre me foram tão sofridos, agora eu tiro de letra. Sou um polvo esfregando os produtinhos no rosto ao mesmo tempo em que leio poesia e preparo um café. Não sei se ser desdobrável como escreveu a Adélia Prado era sobre ter vários tentáculos. No entanto, acordei num sonho intranquilo metamorfoseada um bicho-Kafkaniano-mulher. Não é sobre dar conta de tudo, mas é sobre querer ter tudo ao mesmo tempo. Teve também a Beauvoir, mas esse é um outro filme.

FIM