Um blues para 2019

Museu

Se houvesse

um museu

De momentos

Um inventário

de instantes

Um monumento

Para eventos

Que nunca aconteceram

Se houvesse um arquivo de agoras

Um catálogo de acasos

(…)

Se houvesse um depósito de detalhes

(…)

Ana Martins Marques


É parte da beleza dela não estar exatamente aqui, uma sonhadora…

The Blues ain’t nothing but a good man feeling bad (O Blues não é nada além de um bom homem se sentindo mal)”.
Fonte: Caleidoscópio.art.br

Em 2019 às vezes eu não sei se houve memória ou apenas a sensação dela. No instante em que eu reencontrei esse poema da Ana Martins Marques desejei um depósito para esse ano que eu pudesse abrir a qualquer tempo para tentar compreendê-lo. Enquanto eu escrevo isso, recebo uma cartinha (tinyletter) do Mateus Baldi e, num trecho, como se o universo falasse comigo: “eu precisava aceitar o mistério na minha vida, não ser tão racional”…

Acontece que eu sempre gritei Eureka ao final, sempre. Demoro para compreender as situações e sempre fui uma fã incondicional da minha ausência de pressa pra deglutir as coisas em que eu estava me metendo; mas esse ano, depois de passar por situações um pouco delicadas (que se você pedir pra eu listar, jamais saberia com clareza), decidi que preciso estar mais presente. Também não sei se essa é mais uma das exigências que coloco sobre mim. E, mais uma vez, talvez eu só saiba daqui a dez anos, quando, na verdade, poderá me custar muito caro daqui a uns quinze minutos. Eu acho que não falei em lugar nenhum que faz uns três anos, talvez, que precisei voltar à psiquiatra pra saber se meus esquecimentos seriam um Alzheimer precoce (como os da professora linguista de Harvard em Para sempre Alice) . Minha vó materna tem alzheimer, meu pai é um diabético teimoso que não dorme bem e já esqueceu que fôra de carro pro centro da cidade. Voltou de ônibus. Eu não sei como é o Alzheimer clinicamente, o que eu sei é que a minha vó adora pintar naqueles livrinhos de colorir e que ela pergunta de quem eu sou filha de dez em dez minutos. E que ela tá sempre mais bonita e ama um cardigã rosinha.

Para todas as garotas com a cabeça nas nuvens

Se para meu dois mil e dezenove houvesse uma película de série, ela seria para mim a estranhíssima de Sharp Objects – que não li e nem terminei de ver-, e a quem eu só assistia com o brilho de tela muito baixo. Na verdade eu não sei qual é a película original, mas tem algo de verde musgo, às vezes um amarelo-ocre nada reluzente, um pouco depressivo, pessimista. Não escondo de ninguém que, noves fora, esse ano foi too much pra mim. Não sobrevivi a quase nada: às notícias, às injustiças, à sensação de não estar fazendo o suficiente. Aliás, sobre isso, eu quero dizer que talvez eu tenha entrado naquela espiral , naquela coisa de que se fala na internet, aquilo de comparar nossa vida com as das outras pessoas (toca um Mile Davis incrível agora). Começou em mim algo como não me sentir bem em lugar nenhum, mais virtual do que real. O real, mesmo dolorido, parecia ser a minha salvação. Talvez não exista nada mais saudável do que a realidade. Se a gente for falar da internet eu não seria a melhor pessoa pra opinar…ando tão zangada com a forma como permiti que ela se tornasse mais poderosa do que eu, meus sentimentos e os discos do John Coltrane que eu ouvi religiosamente todo domingo. Eu ainda não sei o que fazer quando a gente não sabe, tal qual a Alice, se algumas coisas realmente aconteciam, ou se era só algum trecho do melhor jazz que eu ouvi, algo como o jazz que eu ainda não conhecia (as descobertas sempre vão me deixar fascinada)…ou um coelho branco gritando que está atrasado não é estranho? Não, não é estranho, ao menos para mim…e eu preciso parar com isso.

Sharp Objects – HBO

Eu falava sobre memória, o mote pra esse e outros textos que eu tenho maturado na cabeça em dezembro. O blues é uma lembrança… o blues é toda vez que se repete na minha cabeça o Candeia cantado por Cartola:”Deixe-me ir preciso andar, vou pro aí a procurar, rir pra não chorar”… Então, eu não sei vcs, mas eu estive tão ausente nas minhas crenças, princípios e certezas nesse ano que várias vezes me peguei com saudades de mim. É possível ser tão legitimamente infiel a si mesma durante um ano inteiro? Ou sou apenas eu exigindo que desse conta de tudo e tentando controlar todos os caminhos e possibilidades? Queria me deixar em paz ao menos nos textos…

Talvez eu esteja falando de estar…de perceber, tocar, sentir…respirar. Uma das minhas aventuras, quando eu morava numa ilha, era sentar no banco mais alto dum ônibus que nem passava pelo meu bairro, mas que atravessava uma ponte. Eu adorava abrir a janela e sentir o cheiro de mar. Isso é estar presente. Esse ano inteiro eu estive doente, presa na minha mente e num corpo dolorido e esquecediço e a pior coisa que pode acontecer a alguém e ela não poder contar o que aconteceu por não saber…perder as estribeiras, perder o ônibus, perder o tempo da música, perder o Twitter na timeline, as certezas…Tem outra coisa também: não entender…não entender é péssimo.

Eu não tenho Alzheimer. Eu tenho uma doença autoimune em que meu corpo ataca a si mesmo. Então meu cérebro está tão hiperativo sinalizando dores causadas por nadas, que eu não memorizo mais. As únicas coisas de que me lembro perfeitamente: como às músicas do Coltrane iniciam…imitar os scats da Ella Fitzgerald e para os letristas, as partes que eu acho que ficaram bonitas…ah, quase tudo que a Mônica Salmaso canta.

Para aqueles que sonham mundos estranhos

(Eu não gosto que roubem de mim os significados que as canções podem vir a ter…porque pra mim é mais do que uma mensagem…é meu jeito de lembrar…)

Mas eu preciso dizer que, apesar das dores não serem reais, elas existem. Eu já fiquei longos períodos sem dor, em remissão. Eu lembro que nessa época, na minha rua, havia uns pés de gergelim e eu era muito feliz por saber que gergelim dava no pé, eles me lembram, na forma, um pouco o trigo…e eles ficam altos, muito altos, tanto que escapavam pela cerca e ficavam bonitos toda vez que o sol se punha.

(MeuDeus, ouçam no 2:08 de Circle, Take 6, Mile Davis Quintet , que belíssimo trompete me dizendo que a vida é realmente mais bonita quando estamos nela, quando na nossa rua tem pés de gergelim e leva um tempo danado olhar pra todos eles.)

Então, eu pude olhar praquela rua, eu pude saber que nem todo mundo acorda e leva uns 20min pra colocar os pés no chão…Eu tava tão ali que vi um bezerro nascer e andar pela primeira vez. Eu sabia que no final da minha rua tinha um pé de caju vermelho, o que não me parece ser tão facil de se achar por aí. Eu morei em um lugar que a gente lanchava só de andar por ela…Acho que nessa época eu estive presente…

Digamos então que essa seja a minha ridícula e privilegiada queixa sobre dois mil e dezenove: o quanto eu me ausentei dela porque ou eu desisti ou eu estive muito doente…também fui impulsiva, passei em seletivos, chorei antecipadamente, gritei com pessoas, magooei, disse coisas cortantes, aceitei situações que não dava conta…

Então, eu fui humana…e fui só uma vez àquele lugar que deu início a tudo, vi uma vez o palácio e os leões, só vi a fonte por foto, falei da serpente através da poesia e não ouvi as músicas que gostaria de perto. O que eu fiz foi não viver e fingir que tava tudo bem. Prometo que existem listas de momentos bons, de estradas vermelhas que percorri, de pessoas desconhecidas a quem ajudei, de surdos que me ouviram, de sambas que cantei enquanto experimentava um novo café…é só que eu não lembro, não tava munida de um arquivo, um museu ou um inventário…

Parece um lamento, é um blues…

quem nunca se regenerou escrevendo a tristeza?

6 comentários em “Um blues para 2019

      1. Eu não tenho falado muito com você,aparecido no seu blog,seu e também dos outros amigos,perdão.Não foi por mal,não.Eu continuo publicando no blog,mas com um tempo maior entre uma postagem e outra.Eu continuo sim,com o blog e com todos vocês,mas as coisas vão acontecendo,o dia a dia com seus desafios,e também estou no Twitter,ano passado entrei no Instagram,aprendendo como usar o Instagram,praticando lá,mas quero continuar com tudo e vou tentar estar mais no blog e com vocês.Eu não esqueci vocês,não e nesse tempo todo eu quis falar mais com vocés mas são muitas coisas,tentando aprender e praticar,e os imprevistos que às vezes têm no dia a dia e me deixam nervosa e às vezes pra baixo, e vou indo.Mas como falei,vou tentar estar mais com vocês neste ano.Espero conseguir.Por exemplo,meu pai não está muito bem,estou estressada e meio pra baixo,espero que ele fique bom logo.Então é isso.

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