Escrever não é uma escolha, “é intima ordem de comando”. (sobre escrita e desaparecimentos)

“Há episódios nessa vida ditados por uma discreta lei que nos escapa”

Dr. Pasavento, de Enrique Vila-Matas

Três autores me rondaram a última manhã de setembro em que choveu aqui no sertão. Quando eu digo que escrevo do sertão, não é por saber geograficamente, exatamente, a que parte cabe esse lado, é mais por ter de cor a divisão inexata dos períodos de chuva e desse outro tempo em que as margens da rodovia mudam de um verde vivo para um amarelo ocre; é também por ter tido um vizinho cuja vaca leiteira, do mês de agosto em diante, não dava leite por falta de mato pra comer…é também por sentir no corpo o pouso quase imperceptível do potó (um bichinho flamenguista – vermelho e preto- que “mija”, por assim dizer, diante do perigo de uma mão pesada a lhe tirar satisfação).

Aqui no meio do sol há muito espaço para desaparecer. É meio dia e as sombras e chapéus, os vultos na cidade pequena, a fumaça que sobe do asfalto, caldo de cana e milho assado…esse combo de interior Maranhense que facilita ver poesia e que dá forma a escritores. Foi no meio dessa mistura que me apareceram as figuras de Clarice, o catalão Vila-Matas e o poeta dos quintais, Manoel de Barros. Todos traziam trechos de si mesmos sobre questões que eventualmente eu tomava para mim. Faz alguns anos que venho me debruçando sobre esses encontros com trechos, autores e a questão do desaparecimento. Dito isso, foi assim que me afeiçoei ao romance do catalão Enrique Vila-Matas sobre um tal Dr. Pasavento que a caminho de um encontro literário decide desaparecer:

“- de onde vem essa sua paixão por desaparecer?”

(…)

não sei (…) ignoro de onde vem, mas suspeito que toda essa paixão por desaparecer, todas essas tentativas, digamos, suicidas são por sua vez desejos de afirmação do meu eu. (Enrique Vila-Matas) Estava o autor em Bordeaux, no mesmíssimo lugar em que Montaigne, num estúdio e biblioteca do terceiro andar de uma torre, também escrevera e inventara o ensaio:

“(…) de modo que se pode dizer que o nascimento do sujeito moderno não se deu em contato com o mundo, mas sim em cômodos isolados, nos quais os pensadores estavam a sós com suas dúvidas e certezas, a sós consigo mesmos.” – (Vila- Matas)

Apertei os olhos porque diante da releitura desse desaparecimento, eu mesma pensava o meu. Nunca inventei nada como Montaigne, nunca precisei ir a algum encontro literário que me exigisse planejar um sumiço no meio do caminho, mesmo assim, a nossa escrita sempre pede por desaparecimentos. Ou sumimos no texto, ou deixamos a angústia escapar ou abrimos nossos computadores em editores de texto e desaparecemos nós e nosso gênio criador. Mas, e se há leis que nos escapam e que condicionam nossos escritos?

O ruído, as gentes, as pernas nas feiras podem ser o tema de um texto e, ao mesmo tempo, produzir tanto barulho que seria impossível nos ouvir. Então, era meio dia e eu buscava por uma sombra num quintal, que é como vez em vento eu desapareço. Já perseguiram o silêncio assim? Quintais…

“pensei no quanto os escritores apareciam na minha vida, nos meus sonhos, em meus textos…” (Vila Matas)

Eles me vinham primeiro na figura do enorme quintal da minha vó no Pará; eu, criada numa casa sem quintal, apaixonada por pés de goiaba e plantas do quintal alheio, assistindo da janela, por quase 24 anos, a lavação de roupas no terreno vizinho. Eu passava horas na janela vendo a moça esfregar o sabão verde cheio de pintas numa palha vermelha e fazer o movimento de vai e vem; depois ela batia as calças jeans…e tinha o som da água dos baldes que não davam conta de tanto volume e caiam no chão. Depois, tinha o quintal da minha outra vó…tinha o pé de acerola e tinham as vezes em que eu desaparecia debaixo dele, torcendo para que não dessem por mim e ficasse horas ouvindo as galinhas e o pato ganso naquela pequena comunidade de quintal, ali, no alto do Monte Castelo. Foi só quando vivi esse desaparecimento em quintais que me dei conta de havia o poeta de quintal que também ousou sumir: “uso a palavra para compor meus silêncios” (Manoel de Barros)

Josè Castillo, em “Manoel além da razão”, cita o argentino Borges e seu desejo “de se tornar um homem invisível”, fala também de um outro catalão, o Rafael Argullol que “define a poesia como “a destilação do silêncio”. Todos esses foram encontros inesperados enquanto eu pensava mais um desaparecimento dentro do outro. Faz uma boa quantidade de meses em que desapareci da escrita. Internalizei que quando há muito barulho, ao contrário do que se imagine, há pouco que se dizer. É preciso, como asseverou Manoel, não ter “bens de acontecimentos”, “não saber fazer” porque ” o que não sei fazer desconto nas palavras”. Não saber é do campo do inesperado, da surpresa…é preciso uma sala no alto de uma torre para que se crie…essa torre pode ser o desaparecer em si mesmo(a), esse sumiço pode ser comer acerola verde debaixo do pé, ver nuvens sentada no quintal e, em tempos de feeds e pequenas histórias de quinze segundos, silenciar burburinhos. Para não saber é preciso, segundo Manoel, “ter um enorme ermo dentro do olho”. Ermo, solidão, vazios são paisagens de onde brotam as palavras, as necessidades e surge poesia…

“escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar” – Clarice Lispector

“O que aqui escrevo é forjado no meu silêncio e na pré-penumbra” – Clarice Lispector

ermo, solidão, vazios e um caderno de despesas com frases soltas são paisagens de onde brotam as palavras. Era meio dia e o livro de Clarice, ao lado da máquina-herança-de escrever é a terceira autora a quem o calor e as moscas fugindo da possível chuva me tomam pelo braço: A descoberta do mundo. Como se fosse possível mais uma coincidência, o conto era sobre um mulher de “quadris largos, olhos castos, castanhos e sonhadores” que perdera uma caderno de despesas em que havia anotado algumas frases em um momento feliz de inspiração. Soma-se aos desaparecimentos obsessivos de todos os outros autores que atravessaram meio dia meus pensamentos.

-Acho que eu não podia ser escritora, sou tão…resumida”

e é quando somos resumidos, concisos, rápidos, quando somos feeds, que mal degustamos a vida e anotamos aforismos em moleskines perdidos…é assim que somos menos escritores… Se eu não perceber lentamente a vida, ela me sairá como um caderno de despesas perdido. E foi o que houve: tudo tão rápido, tão veloz, tão fora da noite que a única possibilidade foi planejar esse desaparecimento.

“um dia, porém, escondida de si mesma, teve uma inspiração” – Clarice Lispector

era meio dia e cortava cebolas…cheirava a chuva do ano seguinte no meio do sertão…não pensava em nada, até que decidiu desaparecer na escrita…parou de ser resumida e deliberou dar voltas em torno da própria torre:

“Ser grande é saber ceder seu lugar ao outro” (Handke por Vila-Matas)

Para onde vamos quando nos escondemos de nós mesmas? Cedemos a nossa face, as nossas mãos, o jeito que empunhamos o lápis, que carregamos nossos cadernos, que encostamos nossos narizes no papel ao outro…àquela que se inspira porque nega o barulho lá de fora…Somos quantos? Que parte de nós decide por escrever um texto? Cada vez que o termômetro da cozinha aponta para os trinta e oito graus surgem esses escritores e suas questões sobre a escrita que nós assumimos para nós. Foi desesperador perceber que era o calor e as queimadas que desataram essa busca pelo desaparecimento…isso porque as chuvas anunciam o próximo ano, as mangueiras florindo dão sinal de que a vegetação logo muda…que outros autores me visitariam não fosse aquele transe entorpecedor e gotas de suor nas têmporas?

ainda lânguida, recostada na cadeira, dizendo clarices clariceanas, a escritora me conforta: “não é por escolha: é intima ordem de comando”.

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