Abril despedaçado: álbum poético para obsessivos compulsivos

Eu comecei a apertar os dentes na metade de Abril. Assim, bem forte, como se houvesse um pedaço de rapadura entre eles. Só que não tinha nada. Nem era doce, mas era duro e foi piorando.

Então eu fritava um bife, me virei para escolher uma música e esqueci de voltar. O bife ficou esturricado, mas eu imaginei que ele passaria bem se eu fizesse uma bela salada com molho pra acompanhar. Mexi meu queixo e senti como se tivesse levado um soco. Foi assim abril inteiro. Acordava às quatro da manhã sem nenhum despertador e preparava o café, sempre com um disco bonito de fundo. Olhava uns dez minutos com a xícara na mão, encostada na porta, o pé de goiabeira no fundo da minha casa, não exatamente no meu quintal, e acho bonito o desenho que ele faz no céu. Como se vê, eu não tenho porque apertar os dentes. E esse caso, parece, só vai ser desvencilhado agora em maio.

Primeiro eu achei que era brilhante acordar todo dia às quatro e bem disposta. Voltei pra natação, comprei uma touca de um rosa bem clarinho, um maiô novo e, embora houvesse me matriculado no curso da manhã, comecei a ir à noite porque só havia quatro alunos. Tinha um plano pra manter uma boa alimentação, lavava meu cabelo pelo menos umas três vezes na semana, mas andava bebendo muito café: quatro xícaras de uns 300ml por dia ou mais.

Sempre fui apaixonada por café. Não do tipo que conhece todas as torras e grãos, mas do mais simples e obsessivo – aquele que não passa sem ele, que acompanha arroz e feijão, que doi a cabeça cinco da tarde, que caça cafeterias e escolhe o coado, que sabe qual é o café de estrada mais gostoso entre a minha cidade e São Luís.

Mesmo sem estudar o café sou caprichosa, compro alguns grãos, tenho moedor, algumas italianas, francesas e herdei as louças da minha vó. Assim, alguns dias eu me disponho a realizar pequenos rituais: abrir o potinho, cheirar os grãos, passar na torra e deixar perfumar a casa inteira. Coar é meu método de extração predileto. Tenho três coadores de pano que estão comigo há algum tempo. Quanto mais gastos, mais eu gosto de que eles se enriqueceram dessa nossa história. Daí eu escolho a xícara mais bonita, às vezes faço uma foto e beberico satisfeita. E isso é tudo que eu posso falar sobre o café – que eu o respeito muito, mas, que, infelizmente, da minha parte, a relação extrapolou e eu precisei parar um pouco.

Primeiro a gente rompe com o café, depois entendemos que precisamos reavaliar tantos lugares, pessoas, ideias e pensamentos, abraçar nossa vulnerabilidade e entender quando somos demais ali, quando estamos para além de várias xícaras de café e bebemos muito de tudo. É a hora de parar um pouco. Abril foi sobre excessos. Choveu bastante, as ruas alagaram, as horas no ônibus do interior para capital se agigantaram, os discos para ouvir se avolumaram, recebi muito da mesmíssima informação…Comi mais chocolates que qualquer outro mês e passei mais tempo na rede social do que na vida real…Para dar conta do processo, de como foi Abril, recorri às minhas anotações, às fotos no celular, aos stories. Soube do que li, do que vi, do que editei, do que quis mostrar e há, também, uma abundância de mensagem naquilo que não é dito (repara naquilo que não digo).

Não deu tempo de sentir.

Em contrapartida, no meio dessa automação algumas conquistas, livros finalizados, bloco de notas repleto de trechos e tomadas de decisão. Soube hoje que parte dessa desfragmentação da minha memória se deve ao meu déficit de atenção, que nunca foi novidade pra mim, por conta dos meus níveis altíssimos de ansiedade fomentados pelo uso de uma medicação que me ajuda com os pensamentos obsessivos. Eu produzi muito, mas não produzi nada. Eu fui muito, quando o suficiente já bastava. Quem sou eu, afinal?

No consultório com a médica conversamos sobre as evidências de que eu já tinha toc ( o diagnóstico só tem oito anos, que foi quando eu tive minhas primeiras crises) e déficit de atenção desde pequena (super concentrada naquilo que eu amava, desfocada do que era necessário, com dificuldades para terminar algumas coisas, mas disciplinada)…Quem sou eu? Em que momentos eu pude viver a experiência de não ter toc e ser apenas eu mesma, sem os medos surreais (mas tão reais), ou, paradoxalmente, tão corajosa; inventiva o tempo inteiro, colocando tudo pra fora e, noutra antítese, guardando tudo para que num dia qualquer, como um rio que nasce no sul do Maranhão, desembocasse tudo no mar? Sem o Toc eu seria? E o que é realmente “sentir” no meu contexto?

Inicialmente eu quis subestimar Abril por, aparentemente, eu não ter nada de concreto para oferecer para maio. Mas, na verdade, Abril foi uma provocação: eu vou fazer o quê com isso que eu tenho aqui? E, porque, necessariamente, eu deveria encontrar uma resposta?O que eu vou fazer com esse desmantelo de mim?

Eu queria aqui colar o trecho clichê do Raul sobre uma metamorfose ambulante, mas eu ouvi tanto uma música esse mês, que tem a ver com uma outra ideia, mas que pra mim faz sentido sobre essas “incertezas” de Abril: “quando você dança, eu não sei”… Se dançar é a metáfora para todos os passos que eu dou à medida que monto a apresentação final (se é que um dia a gente sobe nesse palco), “não saber” é exatamente o que se quer. Não é preciso ter o controle sobre tudo, as respostas pra tudo…”eu não sei” é da família das vulnerabilidades e aprender a conviver com isso é ter o prazer de ensaiar os passinhos, um por um, dia após dia. Abril foi necessário em toda sua loucura…foi mais terapêutico que chá, que divã e mais eficiente que as cinco gotinhas de Rivotril. Nada melhor que esse clichê, a vida, pra fazer a gente parar, respirar, contar até dez, postar e/ou transformar tudo isso em crônica.

#FéNasMalucas

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3 comentários em “Abril despedaçado: álbum poético para obsessivos compulsivos

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