Um trio com Duke Ellington

Todas as coincidências do planeta convergem nesse momento. Chove tudo que não choveu em 2016 nesse dois mil e dezenove – e a chuva é minha permissão para a melancolia-; além disso, eu vou menstruar e o Dr Jekyll and Mr Hyde, a bela e a fera, ou todas as personas numa só…meus heterônimos, em especial aqueles que choram diante dum poema de Fernando Pessoa falando sobre bacalhau, saem todos como quando a gente tá com inflamação e come comida remosa. Foi sempre assim que enxerguei essa ideia que minha mãe me ensinou (e que aprendeu com a mãe dela) sobre colocar tudo pra fora. Eu morria de medo de ter alguma inflamação que não desse conta de que tava lá e, ao comer uma carne de pato, um porco, caísse no chão e todas as tripas saíssem. Hoje eu sei que é muito mais sobre se derramar e sobre receber um carimbo na testa: tão intensa que compra chita pra fazer um vestido rodado.

…mas como eu dizia, além do tempo, da melancolia, e de que tudo se equilibra hoje para celebrar o dia internacional do jazz…eu ouço Duke Ellington e Coltrane tocarem “In a sentimental mood”. Pretendia maturar um texto até que houvesse tempo pra transformá-lo numa grande obra…só que todas as coincidências convergem: por que não improvisar o meu próprio jeito de celebrar esse dia? E, agora, toca a faixa “Big Nick”, uma afronta pra minha coleção de super sincronias…isso porque tenho “Nique” no nome e 1,70m… e nunca aceitei que a primeira coisa que me dissessem por toda a vida fosse: ” tu é muito alta”…me sinto sempre “a big nick”, e eis uma vulnerabilidade que não consigo abraçar…Queria que a primeira interjeição que viesse ao meu encontro fosse: tu é muito jazz. E isso de ser alta me traz certos problemas porque adquiri recentemente pressão baixa por conta das minhas medicações para o Toc, o que tem me deixado bastante propensa a me sentir mal em vários lugares. Descobri que não posso levantar rápido da cama, aliás, de nenhum lugar, nem mesmo da biografia da Michelle Obama, que é o que tenho voltado a ler essa semana. Também saio devagar das playlists que ouço desde janeiro e, como tenho entrado bem pouco nesse blogue, hoje, é a primeira vez que ensaio como sair nas pontas dos pés, olhando pro horizonte, sem me alegrar demais por tantas bonitas coincidências costurarem essa manhã. Escrevi num outro lugar que é quando ouço jazz que me sinto bonita. Não é quando não pinto a boca, ou quando pego sol e minhas sardas ficam mais evidentes, ou quando acho uma roupa que me cai bem…nem quando sento no chão da livraria ou quando meus cachos ficam bonitos até bagunçados. O primeiro lugar que me deixa bonita é ouvindo jazz, o segundo é quando eu passo tanto tempo sem andar pelas ruas do centro histórico de São Luís e, de repente, me decido por uma passeio por lá sozinha.

Não existe outro jeito de eu celebrar o jazz sem contar a minha versão da história, como se fôssemos um sentimento só. Acho que nessa vida a gente se trança às coisas que amamos, a gente invade esse sentimento, toma posse e é isso que faz sentido. Para esse dia internacional do jazz eu decidi que, além de levantar devagar, vou aceitar algumas coisas que não posso mudar, uma delas é que “in a sentimental mood” é meu estado de espírito para sempre; algumas vezes vou cair dos meus 1,70m porque há muito improviso nessa vida, nem tudo pode ser calculado e isso é batalhar contra o monstro do Toc em mim…às vezes preciso me permitir vir aqui e escrever como quem entra num quarto para compor freneticamente (tal qual John Coltrane)…e vou ter que lidar com as expectativas alheias, colocá-las no devido lugar …não posso lidar com tudo, não há como tomar pra mim aquilo que os outros querem de mim. Ah, e repetir toda manhã o que quero ouvir (embora esteja sendo bastante injusta, ouvi isso essa semana umas duas vezes): eu sou jazz. Não preciso esperar por validação de fora…Todo Duke Ellington do mundo tocando pra mim como se me enviasse uma mensagem secreta, já é um jeito de me dizer que sou um grande solo de piano alguns dias, noutros um solo de sax…e há aqueles em que termino uns scats da Ella Fitzgerald, ou a voz pequena e apaixonada da Billie Holiday, as canções de protesto da Nina Simone…até porque, mais adulta, assim que vejo uma inflamação, corro pra comer comida remosa. Gosto de colocar tudo pra fora

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