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Esse filme não é um texto autobiográfico: qual o cheiro da sua vida?

o cômodo cheirava a muro úmido, mais que o resto da casa”

(A história do novo sobrenome, Elena Ferrante)

O que nasceu primeiro em mim? A percepção das cores, dos sons, dos cheiros, ou afundar com a ponta do indicador os pequenos musgos no muro do quintal da minha vó?

Eu era uma versão tropical de “Beatriz” – do Milton, não a do Chico-, e dirigia o meu próprio “Show de Truman”. Na minha cidade cenográfica eu era um bebê numa casa sem quintal que dava, ironicamente,  para um pé de abricó. Esse foi todo o verde do mundo que eu conheci até poder ficar na ponta dos pés e enxergar – da janela do quarto mais alto da casa -, os coqueiros espalhados pelos quintais alheios e o mangue no braço de mar que ladeava meu bairro.

Mas antes que eu me desse conta do cheiro de ostra com sal e limão que vinha do pequeno pedaço de mar ali, a diretora, por questões de verossimilhança, cortou essa cena praqueles sábados em que havia carteado na casa da vó. De todos os cinzeiros, e havia um pra cada jogador, subia uma densa fumaça de quinta; alguém batia com as unhas nas cartas dispostas como um leque e, da cozinha, se ouviam os badulaques das tampas de alumínio sendo tiradas e depois recolocadas nas panelas. A minha vó cozinhava o cuxá mais gostoso da minha infância sob holofotes e, se você tiver obsessão por esse prato como eu, sabe que ele tem sabor, cor e odor bem característicos. Não é um prato fácil para quem não cresceu nesse país que é o Maranhão – o verdadeiro, ou o que é transmitido pro resto do mundo. Nesse cena ele acompanha arroz branco e tainha frita.

Aqui o telespectador mais atento acredita que o fio da história vai ser tecido a partir desse exótico prato. Afinal, toda história que se preze tem como ponto de partida ‘o doce da vovó”, mas essa não é uma história que se preze porque o  primeiro cheiro que eu senti foi da mesa, sim, a enorme e oval mesa de madeira que comportava cartas, cervejas, aperitivos, jeitos e histórias:

“Madeira”

“Peroba”

“Talvez um tiquinho de sal”

“Uma ou duas folhas de louro”

Nenhum de nós do núcleo infantil tinha permissão para encostar à mesa entre os jogadores. Entre eles já havia um cinzeiro de pé e, perto do cotovelos, um copo de cerveja ou um prato com pedaços miúdos de carne e farinha, as piadas, as interjeições,e os jargões do carteado. Eu brincava com meus primos na escada, mas de vez em quando espiava esse mundo adulto. Fazia isso com a maior humildade. Nunca pretendi ser aquela criança sabe tudo,  tipo prodígio; no fundo eu gostava também de que no meu núcleo nós imitávamos as personagens de “Caverna do Dragão” e tentávamos dar um sentido àquele universo paralelo… e lá, pelo menos lá nas escadas, a gente não queria voltar pra casa…Então, com a desculpa de “tomar um copo de refri”  eu subia no sofá, que ficava perto da mesa – numa distância  boa pra captar o que importasse sem que dessem conta de mim ali. Daí que o segundo cheiro, o  odor mais marcante , era de um amigo do meu avô . Era idêntico ao do cinzeiro e também lembrava camisa passada a ferro bem  quente. Toda vez  que esse amigo do meu avô chegava a gente era obrigado a fazer fila pra pedir a bênção. Ele tinha uma voz rouca e fumava infinitamente:

“Fumaça”

“Cigarro”

“Uma vida misteriosa sobre a qual não sei nada”

“Camisa bem passada que cheira a ferro quente encontrando com água borrifada”

“Ele nem é nosso tio”

Biotônico: porque ele sempre sorria quando meu avô dava uma colherada desse xarope pra cada neto”

Universo paralelo mesmo era essa mesa. Sabe-se lá o que acontecia na vida real e particular de cada um daqueles jogadores ali.  Eu dirigia um filme sobre a minha vida, mas quem era espectadora era eu. Debaixo dos meus olhos infantis aqueles atores encenavam uma vida. Para quem aquele carteado seria um escapismo semanal? Por onde andavam as suas esposas? A minha mãe, por que ela mesma quase nunca estava ali? As mulheres, por que eram tão poucas à mesa e sempre precisavam levantar pra checar a cozinha? Esse amigo do meu avô, a a quem pedimos  a bênção e que nem sabe os nossos nomes de cor e, além disso, ganhava várias partidas – quem é ele no fio da nossa história?

Como essa, repito, não é uma história que se preze, eis uma personagem que entra e sai capítulos depois sem que se compreenda ao certo qual era a sua função ali. O fato é que, de verdade, alguns anos depois, nunca mais se viu essa figura por lá. Todos sumiram, inclusive a mesa, o carteado, os barulhos de panela e o cuxá da minha vó –  que ninguém consegue imitar. Outro dia acho que vi um desses cinzeiros de madeira pela sala. Meu avó adormeceu na morte, ninguém mais toma biotônico – porque ficou claro que a gente não fica mesmo como o Popeye  (essa foi a primeira fake news que eu caí porque quis. Todo mundo sabia que era o espinafre , mas o meu avô dizia que era o biotônico e lá estávamos nós, fila indiana e goela aberta).

A única que permaneceu foi  a minha vó que cheirava à cocada nessa época e vestido de feira. A minha vó, quando isso tudo foi filmado, criava umas galinhas, um pato ganso e tinha um quintal. Era um corredor imenso e umas escadas que davam presse segundo quintal no alto. Tudo isso, meio terraço, era chique por demais. Todo o corredor era cercado de um lado pela casa e do outro pelo muro. Esse muro, envelhecido pelo tempo, era úmido, decorado com minúsculas plantas fofinhas e  tinha aquele cheiro de chuva, de casa de vó, de férias, café passado (coado) no pano

“chuva e terra molhada”

“férias, café, bolo de macaxeira quentinho”

“saudade”

“então é isso que é ter um quintal?”

As escadas terminavam lá em cima onde iniciava um pé de acerola. Quando esse pé tava carregado a coisa mais genial do filme era poder sentar debaixo dele e comer umas acerolas sem lavar. Essa percepção, esse aprendizado de mundo, muito me comovia. Eu, que conhecia suco de acerola em polpa, mas nunca tinha visto uma acerola de verdade, muitas vezes me questionei mais tarde se aquilo não era só objeto cenográfico.  Dá um belo de um final feliz a câmera fechando nos dedos afundando esse musgo do muro do quintal, ou na boca apertando uma acerola entre os dentes. Mas a verdade é que ninguém mais sobe para esse quintal onde fomos felizes. As galinhas foram vendidas e o pato ganso foi parar numa enorme caçarola  e nem era Natal porque essa família não precisava de datas específicas para comidas gostosas ou celebrar. A minha vó, que antes cheirava naftalina, agora cheira saudade, esperança, infância e os lápis que ela usa para colorir os livros de desenho enquanto pergunta de minuto em minuto: “tu é filha de quem, menina?”.

A coisa boa de dirigir o próprio filme é essa. O final é a realidade que não se ousou modificar. Minha vó tem Alzheimer, a casa anda vazia e, nós, os que encenávamos essa sétima arte, já não somos mais os mesmos…acabamos por perceber que muitas vezes continuamos atuando por toda vida. Raros são os episódios em que somos nós mesmos e nos esquecemos diante das câmeras. As locadoras de filmes quase não existem mais, o cinema tá muito americano e caro; já não somos estudantes para obter algum desconto…mas é quando finalmente chove e um muro se digna a envelhecer e ter musgos sobre ele que, diante de nós, se passa um filme, esse da percepção das pessoas no mundo, esse do carteado, esse em que a câmera vai se distanciando tão devagar até tudo ficar escuro e os nomes subirem nos créditos finais.

Esta é uma obra de ficçãoqualquer semelhança

com nomes, pessoas, fatos ou situações da

vida real terá sido mera coincidência.”

“então é isso que é a vida real? uma obra de ficção?”

FIM

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