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Sociedade Literária dos girassóis, rosas mortas, todos os Caetanos e grãos de café

“Aquele que considera” a saudade
Uma mera contraluz que vem
Do que deixou pra trás
Não, esse só desfaz o signo
E a “rosa também”

Jenipapo Absoluto, Caetano Veloso

Olívia,

não é que não haja alguém  com quem eu possa conversar, mas foram sete anos juntas e já dispensávamos um tanto de coisas. Esse é o grande trabalho da intimidade – parece bonito ler num poema que você seja uma sujeita distraída-, no entanto, quando a vida toma forma depois do café, deixar a toalha na cama, não gostar de andar de mãos dadas, amar poesia e não ligar pra rosas ( um buquê de canetinhas, molesquines e washi tapes – qual o problema das pessoas? Grãos de café são tão mais emocionantes. Liga e pergunta do tipo de torra… se prefere  um moedor manual ou um com lâminas que não farão o trabalho direito, mas, pelo menos, não há nada tão romântico quanto moer o próprio café e ter aquele cheiro impregnando a casa toda e isso poderia ser um filme da Amelie Poulanc)…é preciso que essas coisas se estabeleçam logo…De qualquer modo, cada um chega até nós em coleções de trejeitos e há coisas que importam mais, muito mais para se viver aos pares.  De vez em quando se aceitam essas rosas, um pouco a contragosto, sim, e também um pouco de olho no quão bonitas elas ficarão depois de secas no meio dos livros, coladas ao lado de poeminhas da Florbela Spanca e quem sabe daquele do Baudelaire,  aquele que é  uma ode a “uma carniça”.

Agora você abana o rabo e me repreende,  mas nunca se sabe quando ficaremos tão doentes de paixão pelas personagens de Tolstoi de modo que  nada faça mais sentido. Mas eu tinha dezenove anos quando isso aconteceu e, agora, aos trinta e três  vou sendo impetuosa entre os dias, saudades, roupas no varal e as notícias. E você já reparou como as rosas ficam tão mais bonitas quando morrem? Foi Baudelaire quem apontou para a beleza de certas fenecimentos. 

Eu te falo, Olívia, do mesmo modo como atravessávamos os domingos – cada qual no seu esmorecimento…e há algo que, me parece, eu gostaria de fazer só contigo. Queria tanto que passássemos um ano ouvindo o novo disco do Caetano estiradas no chão – porque desde quando eu comecei a gostar primeiro dele e depois do Tom, eu fazia isso sempre sozinha…até perceber que você, com quem dividi muitos dos meus pequenos jeitos, vícios e modos, era a única que ao final me dizia: ” isso lembra aquele outro poema” e eu gostava tanto porque os dias nunca acabavam…de todos os meus mais íntimos você era a única que me olhava sem vergonha e para quem eu poderia dizer “isso aqui que o Chico diz desse jeito, o Caetano fala melhor, porque não precisamos falar das coisas como elas são”… e então você, tão mais sábia, me perguntava quase que adormecendo:

“Por que você adora comparar esses dois?”

Depois nós dávamos goladas nas nossas limonadas e ficava claro que era uma bobagem sem tamanho…

…aquele ali era o nosso pequeno clube, algo entre as leituras de Jane Austen, ou as reuniões de Mary, Percey Shelley e Lord Byron  e, ao final, sempre montávamos um monstro de qualquer coisa. Éramos boas em juntar pedaços…

Olha, Olívia, não me olha assim que eu vou ficar bem…

Eu vou continuar ouvindo o disco do Caetano e não há nada nesse mundo que me faça gostar mais de rosas do que de girassois, a não ser que elas estejam mortas e adquiram aquelas cores dramáticas e pareçam, por fim, um quadro de Caravaggio… Embora tu não tenhas perguntado, ainda olho pro céu deitada no quintal…adoro pontes e telhados e o jeito como a luz chega na cozinha. Tem acontecido muito de o céu ficar azul e rosa e eu gosto de dizer que nesse momento Piaf e Djavan sentaram para um bolo de cupu e café. Sinto saudade dos teus olhos e de dizer que eram um trecho da música do Legião…

Olívia, eu te envio um livro do Mia Couto e a lista dos que comprei e tenho esperado chegar…corro para a porta sempre que penso que são eles…eu sei, se tu tivesse aqui estaríamos inventando uma crônica da espera…Assim que chegarem eu te conto…são livros, são tão importantes e eu quero que mudem algo aqui em mim porque vou para os trinta e quatro e sinto que vai ser algo bom…enfim, esse é um outro tema e um outro pensamento. Sinta o meu abraço que eu sinto aqui tua barriga no meu rosto – como sempre, quente e barulhenta.

com amor, poesia e um trecho de “Jenipapo absoluto”,

Moça

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