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Mulher de trinta e três anos: a única coisa a fazer é dançar um bolero na garagem de casa

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

– Diga trinta e três.

– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…

– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Manuel Bandeira

Querido diário,

Tem um pote rosa com umas batatas doces grelhadas em cima da minha perna esquerda. Do outro lado, uma xícara enorme de café, como eu gosto – amargo, encorpado, forte, fresco, coado. Hoje é sábado. Em geral acho sábados estranhos e mais quentes. O de hoje estava particularmente amarelo. As ruas pareciam pontinhos do pincel de Van Gogh – muitos carros, grupos de pessoas e bandeiras. De longe davam um quadro. É uma época tremendamente sensível e meu corpo fibromiálgico acompanha o tempo. A cada movimento eu sinto dor. Não é fácil ser extasiada até no modo como atravessamos as épocas. Me sinto deslocada e, ao mesmo tempo, corajosa, por dentro e por fora.

As batatas doces são um jeito de dizer ao meu corpo que tudo precisa ficar bem. o café já é um velho conhecido. Agora, essa mancha no meu rosto, essa de um castanho bem clarinho no meio da maçã, perdida por entre as sardas, ela é nova. Ela não estava aí antes. Não soube lidar com ela no meio da minha manhã de agosto. Não vieram os Ipês amarelos, não desabotoaram as flores dos flamboyants e essa pequena ilha castanha, entre outros pontinhos, submergiu de alguma parte de mim e agora durmo e acordo com ela.

Nunca fui tão vaidosa como agora desde a chegada dessa fase balzaquiana. Eu sempre quis ter trinta anos. Achava o número par e redondo mais bonito pra idade de uma mulher. Além disso, havia Balzac e milhares de outras citações sobre essa idade que eu supunha que tomariam forma em mim assim que fevereiro chegasse. Ledo engano. Tive 30, foi bom, mas não senti a leveza, o poder, a força descomunal, a coisa extraterrena de que tanto havia ouvido falar. Acho até que antes disso o descomunal já havia me habitado. OK, Eu já não lidava mais com as tretas como antes. Já adorava ficar em casa, amava um cantinho do meu sofá, ver algumas series, deitar no chão e ouvir música ou simplesmente ficar olhando minha estante improvisada de livros debaixo pra cima. Eu era uma espécie de adulta de trinta anos. Comprava meus panos de prato, estava zangada que os panos de chão não limpavam nada, “roupa velha é melhor, sem dúvida”. “Talvez com 31 eu experimente essa ‘iluminação'”, pensei” – finalmente um número ímpar (amo os ímpares). Não, não foi. Daí vieram os 32 anos e então eu fui numa dermato. “Talvez seja isso! Talvez a gente só precise cuidar da pele”. Então eu aprendi que existe uma rotina que deve ser obedecida. Os nomes são muito estranhos; a ordem e a lógica de tudo, também. Descobri finalmente o meu tipo de pele e aprendi que não posso usar qualquer protetor solar. A ideia do protetor eu peguei, mas ainda pesco nas anotações da dermato a ordem da preparação : água micelar, gel de limpeza, o tônico, sabonete, hidratante, controle de oleosidade etc. Eu admito: são muitos passos pra antes dum café da manhã e outra repetição antes de dormir (ou, se quiser, pode fazer na hora do almoço também).

Então vieram os trinta e três. Eu realmente achei que precisaria chamar um médico, respirar e repetir pra mim que eu estava dentro dos trinta e três anos.

“- Diga trinta e três.

– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…

– Respire.”

Algumas vezes ainda sinto dificuldade em repetir: eu tenho trinta e três , trinta e três, trinta e três. Me parece como uma escavação no pulmão esquerdo. Eu, que lembro de quando tinha dezessete, deitada no chão da escola com minhas amigas, prevendo o futuro; questionando o que seriámos quando tivéssemos trinta, especulando nossas vidas. Guardei essa cena e disse pra meninas muito seriamente que todas deveríamos fazer um esforço de lembrar desse momento para comparar nossos devaneios com a vida aos trinta e poucos. Não lembro nítido o que eu disse, mas assim como gosto de imaginar, sou fascinada pela surpresa . Como essa mancha no meu rosto (que, com certeza, não foi prevista nessa conversa) provocada pelo sol ou pela chegada do tempo; como esse susto em ter 33 anos e perceber que o tempo em que eu tenho mais consciência de mim mesma, inclusive daquilo de que eu não gosto em mim, seria o mesmo da súbita força para lidar com toda essa honestidade que vem inteira e forte ( como onda quebrando nas pedras, na praia). Esse tipo de coisa, a propósito, é que naufraga barcos. É a primeira vez que naquele meu rosto de menina eu me vejo mulher…no meu desejo em desaparecer sob pseudônimos e nomes fictícios eu me vejo escritora…é a primeira vez que toco no meu rosto reconhecendo-o, amando algumas coisas nele e lidando com as outras partes que por mim faria de outro jeito.

Talvez seja isso…

meus trinta anos literários chegaram nesse trinta e três…Não é que seja muito, é pela novidade, é por essa paz e algumas guerras também, e tudo bem.

“A insustentável leveza do ser”, assim me sussurra a capa dum livro do Kundera sob a minha xícara…

O que tens mais a me dizer ,seu moço, o Tempo?

Essa mancha, ela sai com peeling ou danço pra ela um tango argentino?

(Vai continuar…)

7 comentários em “Mulher de trinta e três anos: a única coisa a fazer é dançar um bolero na garagem de casa

  1. Como disse a um amigo que recém completou 33 anos, igualmente sensível, lembrei-me que quando brincava de tômbola – bingo – bem criança, ansiava pelo sorteio da pedra 33: “idade de Cristo!”. Por algum motivo obscuro, passei anos com a suspeita de que morreria nessa idade. Estou para chegar aos 57. Também não morri aos 40 anos, a mesma idade da morte de Lennon (que nasceu no mesmo 9 de outubro que eu), uma espécie de data reserva para o desenlace. Agora, quando quase consigo viver um dia de cada vez – que poderá sempre ser o último – não faço planos para o futuro, muito menos previsões para mim. Já para o País, não vejo boas perspectivas. Ah, esse terço de seu rosto é muito bonito, aliás, Moça…

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    1. Ah, eu quero muito isso, aprender a viver um dia de cada vez. Acho que eu tinha gosto por brincar de imaginar como seria tudo e, hoje, apesar de saber a ordem das coisas pra cuidar da pele, não consigo ainda dar conta do mais importante: um dia por vez. Mas não terminei ainda esses 33, até fevereiro que vem tem chão. Obrigada!!!!!!

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