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O improviso do domingo: uma jam session na estante de casa (Kerouac, Parker e Cortázar)

Charlie Parker era minha trilha sonora enquanto eu lia ‘On the Road’ (Jack Kerouac), um livro que subverteu toda literatura a que eu estava acostumada. E, agora, quando eu saco o meu exemplar rabiscado da última prateleira, percebo as felizes coincidências e me vejo tão ‘possuída’ e ‘infantil’ quanto Dean Moriarty numa casa de shows NovaIorquina.
Jack Kerouac era aficionado por Parker e também por George Shearing, o pianista (Há algum tempo escrevi um texto inspirada por um excerto do livro – uma narrativa efervescente de Shearing ‘swingando no banquinho de piano’ -, que faz parecer que a gente tá numa casa de jazz, no Harlem, numa jam session, sendo tomados por todo ‘bop’ do mundo). Mas eu falava das felizes coincidências, como a de descer devagar as escadas e na linha dos meus olhos rever a capa do meu disco da Billie.Daí abro o livro e procuro o trecho lindo em que o Jack dá pra nós um vislumbre da beleza da Billie cantando ‘Lover Man’, além de um outro em que ele descreve os quadris dum saxofonista “num requebro sarcástico do jeito da Billie Holiday”.
Ao lado desse disco, que se mistura ao meu Edith Piaf, R.E.M e um do Martinho da Vila, está um ‘Cortázar’. O argentino figura na minha prateleira não só por eu ser uma fã de argentinos e seus realizamos fantásticos, mas pq o escritor é outro louco por Parker e escreveu “O Perseguidor”, baseado na vida de Charlie Parker. Tanto “On the Road como “O Perseguidor” absorvem no estilo da escrita o improviso tão característico do jazz. Olhando pra minha estante e o modo como cada livro está disposto, alguns deles separados por objetos antigos e brinquedos, arriscaria a sugestão de que há uma certa liberdade jazzística ali. Tem um afinador de violão ao lado das poesias. Nesse momento, o ritmo imponente do bebop dá lugar à melancolia quando eu lembro de nunca ter sido bem sucedida em tocar nenhum instrumento musical. Cortázar certa vez comentou que se pudesse escolher entre ‘a música e a literatura teria escolhido a primeira’. Não sei se acredito nisso, mas divido com o escritor um ritual: música sempre me faz escrever. Tivesse que escolher, ficaria com a ficção-um bom jeito de ter os dois.🍃❤🎼

3 comentários em “O improviso do domingo: uma jam session na estante de casa (Kerouac, Parker e Cortázar)

  1. E eu aqui a ler-te ao som de Mercedez Sosa ‘el tempo es veloz’ que me impulsiona na literatura. Sempre tão único ler ao som da voz dessa mulher. Me cala e me deixa em suspenso diante de certos livros. Hoje leio ‘mar de dentro’ e volto a infância.
    Eu não me lembro quantos anos tinha quando li on the road pela primeira vez, mas lembro que quis pegar minhas coisas e fugir pelas estreitas estradas italianas e fui, é claro, do lado de dentro. rs

    bacio

    Curtido por 1 pessoa

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