As conversas que temos com os trechos de livros · Jogando meu corpo no mundo · Sem categoria

A ‘barrigudeira’ genial: o invisível que nos excita e outras paisagens

Minha mãe e minha vó

“O que havia além do bairro, além de seu perímetro mais que conhecido?”

Eu sou filha única e isso já explica muito. Entrei na escola – a uma quadra da minha casa – com dois anos de idade e fique lá até os dezessete. A padaria, a farmácia, a biblioteca, o hospital, a casa da minha vó, da minha bisa, das amigas do colégio, tudo ficava no perímetro do meu bairro. A praia ficava a trinta minutos, mas a gente ia de carro, os primos todos, os potes de tuppeware, as farofas, os tios e a rede de vôlei. Ir ao centro da cidade era a maior viagem. Nós íamos de ônibus. Eu, meus cachinhos e as mãos apertando forte a alça de passar o cinto perto do bolso esquerdo do jeans da minha mãe. Minha mãe é uma paraense muito corajosa. Puxou minha vó, a mãe dela, que foi a primeira mulher a dirigir um carro na época dela; que criou os filhos (todos com nomes compostos) quando das ausências do meu avô -caminhoneiro- e que namorava fora vez em vento. Minha mãe, a Sonia que também é Regina, é bonita, incansável pro trabalho, opiniosa e dança carimbó pra qualquer ritmo que toque no rádio. Foi com ela que ouvi Betânia, Gal, Fagner e um cara do Sax pela primeira vez…foi por causa dela que a primeira voz que eu gostei foi da Betânia e, ainda pequena, era apaixonada por “Fera Ferida”.

Esse cenário é um frame. Quero introduzir vocês às primeiras fugas, ou aquelas de que tenho lembranças. Em “A amiga genial” (Elena Ferrante), as pequenas Lenu e Lila decidem faltar a escola e “ultrapassar os limites do bairro“. Para elas o plano era algo único porque nunca haviam ido além dos limites daquilo que já conheciam. Assim que avançam na sua empreitada vêem colinas, pântanos, e até o Vesúvio; mas, para Lenu, a narradora, “habituadas pelos livros da escola a falar com muita competência do que nunca tínhamos visto, era o invisível que nos excitava“. O mar era o objetivo. As duas que nunca tinham visto o mar, só o sabiam pelos relatos dos parentes. E elas queriam o mar desses relatos, o mar azul e as bolachas que eram devoradas na beirada e que não estavam nos livros.

Então, eu, criada ali no perímetro do meu bairro, atenta, sempre atenta ao que os livros me diziam, conhecia araucárias, os pampas gaúchos, a floresta Amazônica, o cerrado, os pés de babaçu do Maranhão, mas não conhecia a mulher misteriosa que habitava o casarão antigo na passagem pro centro da cidade…ou a outra, que morava detrás da nossa escola, numa casa caindo aos pedaços e que se supunha ser um cemitério antigo. Eu também nunca tinha visto de perto a “barrigudeira”, assim, sem pressa, sem estar dentro do carro e ver tudo manchado como um quadro impressionista através da janela… Explico: a “barrigudeira” é uma árvore enorme do nosso bairro cuja copa cobria quase uma quadra inteira; ela é tão famosa que a Alcione fez um show lá esse ano; a árvore é muito antiga e virou referência: “vai lá naquela na padaria perto da barrigudeira”, “um beijinho lá na barrigudeira?”. Essa árvore não está nos livros. Ela só pode ser acessada se você foge com as amigas pra comer cachorro quente no sexto horário. A sombra da barrigudeira e as raízes enormes que invadem a rua são uma experiência como o mar azul. Comi muitas coxinhas de carne e pacotes de bolachas de chocolate ali. Testemunhei casais escolhendo o melhor lado da árvore pro primeiro beijo…acho até que houve quem tivesse desaparecido entre os vincos daquele tronco.

Não nos era permitido desviar o caminho. Mas quando se é jovem, é necessário tomar atalhos. Foi desse jeito, tomando atalhos em fugas fenomenais que eu conheci tudo que não estava nos livros, mas que antes era apenas sugestão. Mas, para além do meu bairro, com seu cinema antigo e uma árvore icônica, havia também uma ideia do lugar onde cresci tomando forma…ficava 15min da minha casa de ônibus se o trânsito estivesse ruim.

“São Luís – a ilha do amor”.

“Que amor?” – era o que eu me perguntava com aquele livro no colo- o Terra das Palmeiras-, toda aula de história do Maranhão.

Essa paisagem eu entendi quando fomos nos inscrever no primeiro vestibular e cortamos por um atalho a volta pra casa a fim de conhecer a parte antiga da cidade.

Nesse dia, ainda sem graça diante das amigas por não ter tido certeza do que eu queria ser quando crescer, aprendi o amor dessa ilha. Esse amor eu tenho até hoje. Acreditem: eu ainda não conheço São Luís. E essa é a melhor parte desse amor- a reinvenção. Ou, talvez, eu acreditar que, assim como as dunas que se movem, a ilha se move…e talvez meu olhar sobre ela também. Não havia sido a minha primeira vez ali. O Centro Histórico é obrigatório quando os avós e tios vêm passar as férias de julho e dezembro…mas foi minha primeira vez transgressora e rebelde…a primeira vez que eu acabava de compreender o peso e a leveza de não saber e gostei de amar um lugar…Tomar por atalhos sempre nos traz a vantagem de ter novas perspectivas – boas ou ruins-, acho que no final sempre se colhe algum aprendizado.

Ainda que eu vibre em demasia por encontrar na vida real parágrafos de livros e trechos de músicas tomando forma, me anima muito mais ” o invisível”, a subjetividade que parecia impossível…o que ninguém conta num livro de história, mas que anda no nosso imaginário e que poderia facilmente virar um versinho de poema…o que anda na boca do povo e que fica maturando na nossa cabeça é que me move a pegar por atalhos.

Descobri que mais do que saber o que realmente quero, como se a vida “fosse um questionário de Proust”, e tudo só servisse a enriquecer o Lattes, é importante se aventurar para além do nosso perímetro conhecido. Gostava de pensar que fazia só uns sete anos que “jogo meu corpo no mundo”, por assim dizer…mas fazendo esse exercício de lembrar, agora sei que sempre fui ousada e aventureira e “pela lei natural dos encontros eu deixo e recebo um tanto”.

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