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O nascimento de Vênus: a ostra que somos bebe uma chávena de chá (Toca Moska de fundo)

Eu queria que vocês vissem a minha chávena de chá. Ela não foi escolhida, mas me escolheu. Não sei definir muito bem de que material é feita , mas tem uma alça de bambu e pode se estilhaçar caso você seja um artista temperamental desses que quebra coisas numa cena de filme noir. Ao lado dela, uma xícara que me foi dada por uma amiga, que teve um conjunto desses de louças antigas mortos por acidente, quando uma petisqueira de vó, muito louca ( a petisqueira, não a vó…pera, a vó também), colocou abaixo toda a coleção presente de casamento. Ela foi a única sobrevivente, é branca com bordas douradas e tem uns detalhes meio vitorianos. Pode-se passar, claramente, com essas duas louças aqui ao lado, por uma personagem de Jane Austen, ou Downton Abbey .

Eu bebo chá, meio desengonçada, sem pegar a xícara pela alça, porque eu acho tão japonês-nos-filmes pegar pelo corpo da xícara. Eu bebo camomila que é pra ir acalentando os pensamentos e porque acho lindos os talinhos dourados finos com a flor na ponta. Mas eu percebo que de nada vai adiantar todo esse ritual porque, ao passo que estrategicamente bebo chá pra ir desligando aos poucos, acabei de começar a ouvir o novo disco do Paulinho Moska, “Beleza e Medo“, e, a julgar pela identificação com a música que abre o disco – aqui, leitor, a moça dá gritinhos internos bem frase-de-livro de felicidade -, acho que desligar vai ficar no plano das ideias porque a excitação se instalou (“pasma de tudo”, repete Fernando Pessoa dentro de algum livro na minha estante):

Eu permaneço ainda aqui pensando

se não é melhor eu parar de escrever

porque amanhã já vem quase rasgando

e nunca mais vai me escurecer

porque estou preenchido de beleza

(….)

que beleza, a beleza

de onde vem?

como ela se realiza dentro da alma de alguém?”

(Moska, em ” Que Beleza, a beleza”)
“A existência da beleza sempre será explosão”, canta o Moska quase pra finalizar a canção que deu o tom (numa sincronia que daria um conto) desse texto. Eu pretendia falar de ostras antes de falar da minha chávena, antes de discorrer um pouco sobre a música. Foi assim: depois de uma inexplicável enxaqueca nessa tarde, decidi por um banho, chá, ouvir música, escrever e talvez encerrar lendo a Elena Ferrante. Gostaria de ter escrito ontem, mas fiquei presa na vida real, no calor, na confecção dos convites de casamento de uma amiga e na fadiga mais esquisita desde maio (fibromialgia). Me arrastei pra quase tudo ontem. E tenho sentido mais do que antes a necessidade de escrever. Acho ótimo. Nem sempre há fôlego pra escrita e isso também pode ser inspiração. Eu sempre achei que pegar ônibus na minha cidade fosse um bom jeito de captar alguma inspiração. Morei em São Luís até meus 26 anos e, quando mudei pra uma cidade no interior (“Maranhão de dentro”), passeava a pé, de bicicleta ou na minha Billie Holiday (uma fan 160 que vendi esse ano pra pagar meu tratamento fibromiálgico) e isso acabou marcando um tempo e um jeito mais ou menos solitário de captar a vida. “Ué, mas não é sempre solitário isso de ficar pasma de tudo?” – retruca um heterônimo de Pessoa que agora, por não poder virar a cadeira, não sei bem quem é.
<<é que quando eu pegava o ônibus pra dar a volta no centro, pra fazer o caminho mais longo, ainda que as coisas me parecessem tão silenciosas como dentro dum quadro de Hopper, havia as pessoas lá…e eu botava reparo nelas. Então, alguém sempre era um texto pra mim, uma história, uma dedução, um mundo. Havia, na verdade, muito barulho>>
Respondi calmamente e ficou até bem silencioso depois disso. Acho que, como diria a internet, lacrei nessa resposta.
Mas eu ia falar de ostras, por falar em buscar inspiração, porque vi num blogue por aqui que hoje é o dia da ostra. << e eu acho que ela merece mesmo esse reconhecimento>>
Olha o gancho:
Eu aprendi a gostar de ostras com o meu pai. Na verdade, pra’lgumas coisas da vida eu aprendi a botar reparo com o meu pai: pastel de feira, ostra com sal e limão, praia, a beleza dos prédios (ele é engenheiro) e, agora, na era do zap, vídeos engraçados.
Já fugi para a praia só pra comer ostras. A casa da minha mãe em São Luís às vezes tem o cheiro de mar, que pra mim, é cheiro de ostra. “Cozumel”, uma bebida que leva cerveja, vodka, sal e limão, me lembra ostra. Filmes sobre piratas me lembram ostra e tem aquele quadro em que a Vênus nasce ou sai duma concha que me lembra a ostra. Num mundo paralelo talvez eu tivesse um baú em formato de ostra para quando eu quisesse que todo mundo no mundo recebesse a beleza da vida…E eu gosto da ostra crua; além de ser uma delícia, ela é a própria representação do que é captar a realidade. Mas a ostra filtra, eu não. Eu engulo tudo. Como se engole a ostra de uma vez só. Eu absorvo tudo…daí o chá de camomila, a chávena e a xícara, a canção do Moska e a ostra que encerra essa crônica.

Estou na terapia pra saber se essa parte em mim é aquela que nos estrutura ou, na falta dela, isto é, consertando-a, desaparecendo, ela é, na verdade, o pilar, sem o qual eu quebraria inteira tal qual a petisqueira de vó.

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