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Resta esse desejo de escrever um texto bossa para você, Vinícius

Eu ia escrever um texto sobre a bossa-nova porque me ocorreu ontem que eu sempre tenho alguma história pra contar. Talvez porque meu radar para as coisas sensíveis da vida nunca tenha se desgastado…talvez porque o que é real e o que é imaginário em mim não esteja exatamente tão bem definido…e eu acho que isso é o que eu tenho de melhor. Fernando Pessoa chamou essa extrema sensibilidade de estar “pasmo de tudo”.

Whatever, eu ia falar da bossa-nova porque eu queria escrever sobres os discos que eu tenho, os livros da prateleira, os vinis junto à minha Betânia (a minha vitrolinha azul) e os nomes que eu dou aos objetos da casa. Eu ia falar da bossa-nova também porque eu tinha uns catorze pra quinze anos quando me apaixonei pela bossa do Tom, do João e o meu maior sonho era “eu, você, joão girando na vitrola sem parar”… Eu queria ouvir bossa-nova enquanto escrevia pra dizer que era apaixonada pelo Vinícius até descobrir ,na aula de literatura que ele teve nove mulheres, e aí eu reagi mal. Tive ciúmes. Não gostei mais do Vinícius a ponto até de não poder ouvir um sonetinho sequer, a ponto de guardar os discos no fundo do baú…a ponto de desgravar os sonetos que sempre estavam na ponta da língua (sim, sempre fui de recitar versinhos pra lua). Comprei o último perfume Avon Morena Flor ( homenagem ao Vinícius e que era o nosso perfume, meu e do Vinícius; meu pra quando eu tava com Vinícius), gastei todinho por cima duma roupa e saí pra perambular pelos centros de São Luís fotografando casarões antigos pra fazer ciúmes pro Vinícius.

E eu ia chorar no piano do TOM. Na verdade acho que amei os dois em épocas diferentes. Porque também teve o Caetano e eu não lembro quando foi que começou, mas acho que foi quando ele cantou:

“Esse papo já tá qualquer coisa
Você já tá pra lá de Marrakesh
Mexe qualquer coisa dentro, doida
Já qualquer coisa doida, dentro mexe”

<<isso é a coisa mais linda quem alguém pode dizer>> garrei num amor pelo Caetano que teve reunião em família porque “essa menina passa tempo demais jogada no chão dessa sala ouvindo esses discos”…

(eu, que sempre quis ser a Carry Mulligan em An Education, mas só naquela parte em que ela ouve música francesa no chão da sala… tá, nas partes em que ela conhece Paris também…de qualquer modo eu já tive minha ceninha de filme noir ouvindo bossa e mpb…)

E eu nem dava bola pro Chico, ok, calma, eu ouço o Chico, gosto muito, mas “olhos nos olhos quero ver o que você faz” não fez comigo o mesmo que “(…) tipo de amor que não pode dar certo na luz da manhã e desperdiçamos os blues do Djavan(…)”.

De modo que eu amei o tom que amava o piano que amava o Chico que ama a Thaís Gullin (que eu amo imitar cantando defronte pra sombra na parede da minha sala depois do meio dia) que ama Caetano que ama o Vinícius…

Mas eu amei o Vinícius de novo quando encontrei um livro de poesias com aquela que é a mais linda e não é um soneto: O haver.

definiu tanta coisa, mais que a bossa, a fossa, a dor…

O HAVER (Vinícius de Moraes)

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
– Perdoai! – eles não têm culpa de ter nascido…
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.
Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem
hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.

7 comentários em “Resta esse desejo de escrever um texto bossa para você, Vinícius

  1. Amei esse seu amo por Tom e Caetano. Amei Tom quando ele disse ‘Passarim quis pousar, não deu, voou. Porque o tiro partiu mas não pegou. Passarinho, me conta, então me diz: Por que que eu também não fui feliz?” E depois Caetano me arrebatou tantas vezes de ódio-amor-paixão-e-descaso. Quando cantou Sampa no palco do Municipal, eu entendi essa cidade como ainda não a tinha entendido. Seus versos doidos-perfeitos-insanos, era como cada rua, pessoa da cidade que escolhi para dizer ‘minha cidade’.
    Depois o Tom ainda me explicou a tal das águas de março ‘é pau, é pedra’ e se divertiu com a minha Elis.
    Gente, que delícia. Eu sou tão bossa nova que nunca entendi o pouco espaço por aqui. Ouvia lá fora achava que ao chegar aqui iria tropeçar em Bossa pelas esquinas. Mas vi Francis Hime no Municipal e João na Sala São Paulo. E ouvi nas fontes a Elis numa montagem de me fazer chorar-sorrir sua cantiga de roda.
    Ah, olha o que fez comigo. rs
    bacio

    Curtido por 2 pessoas

  2. Nunca imaginei que a Bossa Nova fosse tão alucinante para outras pessoas quanto foi/é para mim. A aparente sensação de vertigem do som cadenciado ou o insuspeito sabor de sangue em amores perfeitos-desfeitos me movem e me comovem ainda hoje, depois de meio século. Lindo texto, Moça!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Então, eu também acabei percebendo um pouco através dos comentários aqui como a bossa mexeu mais que eclipse conosco. Acredita que houve um tempo, e eu estava em sala de aula, como havia se passado um intervalo bem pequeno entre eu ter saído do ensino médio, faculdade e minhas próprias experiências como professora, assim que entrei numa sala, com as lembranças ainda quase frescas do meu Ensino Médio, eu ficava observando e esperando meus alunos também se encantarem pela Bossa Nova. Eu achava que isso obrigatoriamente ocorria quando todo mundo tivesse entre 14 pra 15. Só depois eu fui perceber que na verdade algumas coisas possibilitaram que eu conhecesse a bossa: a minha escola, em vez da disciplina de artes, que era bem comum no currículo da maioria, optou por “música”; além disso minha mãe tinha uns vinis interessantes e um tio meu, que havia acabado de se divorciar e mudara para um quarto pequeno, não tinha onde colocar todas as coisas pessoais e as distribuiu na casa dos irmãos. Lá pra casa foi uma caixa de cedês. Pronto. Fora o fato de que na escola, de bairro, pequena e com amigas muito curiosas, acabávamos dividindo todas as descobertas e ficando alucinadas juntas. Música, livros etc. Enfim, tudo isso acaba sendo incrível. Obrigada!!!

      Curtido por 1 pessoa

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