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Balada de Agosto

Não era agosto e talvez eu tivesse dezenove anos e nenhum centavo no bolso. Eu tinha bibliotecas, a cútis boa, não precisava pentear o cabelo todo o tempo e isso me era mais que o suficiente. Durou até aquele dia em que a silhueta do Fernando Pessoa na capa dum livro me foi tão irresistível que não haveria saída a não ser trazê-lo comigo. Foi assim que eu comecei a listar os livros que um dia eu gostaria de ter em casa; livros que seriam relidos, abraçados ou que ouviriam lamentos e segurariam o choro preciso.

Gostei de Pessoa desde a primeira vez que o vi. Ele tava num quadro que não lembro se era verde-vintage, daqueles que ocupavam um parede inteira da sala, ou esses brancos moderninhos pra serem usados com canetas tinteiras. Eu sei que era um poema de amor. E nele Pessoa falava sobre dizer eu te amo de um jeito diferente do que eu estava acostumada a ler com dezesseis anos. Só depois, na biblioteca, é que eu descobri que Fernando Pessoa tem um jeito diferente de falar de qualquer coisa e que ele botava reparo na vida e fazia poesia desses acontecimentos para os quais a gente não teria uma frase rimada. Esse poema do quadro foi definitivo. Todo Pessoa que eu dispunha era o dos livros da escola, as poesias escritas no quadro e os poucos poemas reunidos de biblioteca. Ainda assim, foram suficientes pra me fazer sentir inteira identificação, depois, com Álvaro de Campos, um de seus heterônimos e o meu favorito.

De todos os poemas que Álvaro de Campos escreveu, é o “A passagem das horas” que eu sempre revisito pra justificar as minhas sensações. É pra lá que eu vou quando sinto o tempo. E eu gosto especialmente da sensação que ele nos dá de que estamos sentados diante duma enorme janela sendo meio que senhores do tempo, ou, pelo menos , tentando, da melhor maneira, tirar vantagem em sentir essa passagem das horas.

“Fui educado pela Imaginação,

Viajei pela mão dela sempre,

Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,

E todos os dias têm essa janela por diante,

E todas as horas parecem minhas dessa maneira.”

Quem é educado pela imaginação sempre chega primeiro nos lugares. Porque ao se ter a sensação – aquela que nos acomete quando, por exemplo, numa viagem de ônibus a estrada nos atravessa rápido e a imagem vai ficando disforme, quase expressionista, e um silêncio nos toma-, questionamos se esse pequeno e íntimo prazer já não foi vivido antes, já não foi sonhado ou premeditado. Isso porque ter sensação nos enche de grandeza, nos dá um poder descomunal, nos faz achar que paramos o tempo, como se houvesse essa possibilidade…como se pegássemos o coração no colo e o embalássemos. Sentir é grande. Diante dessa possibilidade de êxtase desenhamos nossos sonhos, as nossas sensações e antecipamos nossos momentos.

“Sentir tudo de todas as maneiras,

Viver tudo de todos os lados,

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,

Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.”

Como agora em que mesmo que as redes sociais tenham brincado o ano passado inteiro sobre agosto ser o mês mais extenso do ano e, por isso, o mais chato, eu antecipo um agosto em que era uma delícia voltar pra casa e ter os cabelos bagunçados pelo vento no alto da ladeira. Agosto e Setembro são meses dos ventos fortes em São Luís, que tem na sua beirada o mar e o cheiro de ostra com sal e limão. Foi num desses ventos que eu permiti que a angústia de estar deixando um emprego que não me fazia mais feliz, mas que também havia deixado marcas permanentes de amor e amizade, se esvaísse.

Então eu deixei o vento daquelas ladeiras pra viver outros Agostos e com isso testemunhar as mudanças que acontecem com a passagem das horas no Maranhão.

“Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,

Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,

Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,

Seja uma flor ou uma ideia abstracta,

Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.

E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.”

E agora, o agosto que eu habito no “Maranhão de dentro” é dono de poucos ventos e às vezes deixa a gente desgostoso depois do almoço. Longe do mar e abraçada por um rio de água escura, o sol aqui esquenta a ‘muleira’ cedinho e a chuva começa a virar saudade. Se você pega a estrada pode ser que perceba que as cores estão mudando – um óleo sobre tela em movimento. O mato que era verde começa a ter tons quentes de vermelho, laranja, ocre e marrom. Olhar pro horizonte é ver o deserto dos filmes de bang-bang…e haverá nesse deserto, como que pincelado por um Van Gogh, milhares de pontinhos amarelos, brancos, rosas ou lilases. São os Ipês, a flor da caatinga, a beleza de agosto. Aqui acolá algumas árvores seguem vermelhas e fazem fila na beira da estrada, são os flamboyant…bonitos de nome e cor.

É nessa a época que a roça é preparada e às vezes a paisagem assusta, os troncos contorcidos e queimados lembram figuras barrocas e não há nada mais paradoxal do que queimar a terra para dar espaço à vida.

É também o tempo de colocar os vestidos de chita, de cortar um pedaço das caixas de papelão pra se “abanar” e reclamar do jeito maranhense: “nannn, mermã, que diacho de calor é esse? Nannnnnnn…”

Antevejo agosto com a mesma força desse trecho:

“Não sei se a vida é pouco ou de mais para mim.

Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei

Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,

Consanguinidade com o mistério das coisas, choque

Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,

Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz.

(…)

Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,

A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,

A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair”

Dar conta da passagem das horas e amar agosto…

Quanto àquele Pessoa, ele nem tava tão caro assim; consegui dar umas aulas extras , rezei uma semana para que ninguém o tivesse comprado e, finalmente, levantei a quantia. Se você leu o final daquele conto “Felicidade Clandestina”, da Clarice Lispector, deve imaginar como eu me senti levando o livro pra casa. Eu só sei que o apertei forte contra o peito. Não era agosto, mas era como o vento no alto da ladeira, excelso, fluido, puro, sublime…e também era como meus últimos seis agostos, suor libertino e uma flor de ipê no cabelo.

6 comentários em “Balada de Agosto

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