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A amiga genial: eu não me importaria em colocar a chaleira no fogo por você.

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O cenário é bonito. Não fosse ter desistido das aulas de pintura à óleo daria um quadro. Sentada no sofá vermelho, almofadas turquesa, os livros de pintura na mesa de centro, a chaleira de café (TAMBÉM VERMELHA) esquentando a água, o moleskine em capa dura e flores miúdas que ganhei no último sete do sete, a poesia em inglês na contracapa do moleskine, a dedicatória e as seis primeiras páginas rabiscadas com as primeiras impressões de Elena Ferrante em “A amiga Genial”. Daria um quadro impressionista.

Queria que tocasse Debussy, porque Debussy é para quando queremos esquecer do jeito mais bonito que podemos: na sala, no chão, no sofá, metade do corpo no chão e outra metade no estofado. Mas toca “I don´t know what I can save you from” (Kings Of Convenience) de uma playlist aleatória¹ que descobri há uns quatro meses e persiste porque todas as músicas têm uma graça e uma melancolia que vão me servir pra sempre. Elas simplesmente se encaixam. Agora, por exemplo, enquanto penso em como vou escrever sobre como, depois de tantos anos, um livro parece que vai me arrastar pra dentro feito os olhos de ressaca de mar de Capitu, o folk-indie do Kings of convenience, que lembra um pouco a bossa nova e triste, canta:

“I had never really known you,

but I realized that the one you were before,

had changed into somebody for whom

I wouldn’t mind to put the kettle on.

Still I don’t know what I can save you from”

Eu realmente não te conheço

Mas percebi que quem você era antes

Se transformou em alguém para quem

Eu não me importaria em

Colocar a chaleira no fogão

Conveniências e coincidências à parte, para quem vocês não se importariam em colocar a chaleira no fogão? A música parece falar de um relacionamento esquisito em que alguém se acha no direito de salvar o outro e por vezes nem sabe exatamente porque está fazendo isso. Em algum momento um faz mais perguntas do que o outro está interessado em querer responder, o fato é que o outro está sempre lá: quando aquele liga, quando há três anos se falaram pela última vez, quando é requisitado e em minutos aparece na porta de casa e é alguém para quem se pode colocar a chaleira no fogo.

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Acho complicado isso de salvar alguém. Ano passado iniciei a terapia porque queria me salvar de mim mesma e também amar melhor as pessoas ao meu redor. No processo todo foi que percebi que não havia ninguém que poderia fazer o que fiz por mim, tentar me salvar de mim mesma, das minhas neuroses, inseguranças e insanidades. Nem o rivotril estaria em melhor condição de me salvar se eu não quisesse, se eu não tivesse tentado três terapeutas até encontrar a que me ajudou a me reconectar com a antiga eu e fazer as pazes com a eu que eu estava sendo sem acreditar que tudo nesses quase sete anos havia sido uma perda de tempo. Então eu ponho a chaleira no fogão pra mim. Acho que fui eu há alguns anos que me desconectei totalmente de uma pessoa que um dia fui (embora isso possa ser bom em outros contextos, afinal estamos aqui para aprender e esse clichê todo) e me perdi no caminho, não percebi meu crescimento porque só vivia e tinha olhos pro caos.

“I slowly tried to bring back,

the image of your face from the memories so old.

I tried so hard to follow,

but didn’t catch the half of what had gone wrong,

said “I don’t know what I can save you from.”

Eu tentei, devagar, trazer de volta

a imagem de seu rosto de lembranças tão antigas.

Eu tentei tanto seguir

mas eu não entendi a metade do que deu errado

disse “eu não sei do que posso te salvar”

Houve momentos em que eu me olhava através dos meus diários e me perguntava onde estava aquela moça que pintava aquarela na agenda por cima das poesias e dane-se o mundo? Por que agora eu fazia tantas exigências que não cumpriria se há alguns anos larguei um emprego-tábua-de-salvação ainda que todo mundo ao meu redor houvesse me alertado de que isso seria colocar todo um investimento no lixo e que aquele era o meu momento blá, blá, blá…dane-se, eu não tinha tempo pra ler, não tinha tempo pra, do alto da ladeira que desce pra casa da minha mãe, sentir o vento de agosto nos cachos (ah, eu era tão feliz porque tinha esse jeito de saber que agosto era o mês dos ventos em São Luís).

Cadê aquela moça que não tomou posse dum concurso público, mudou da capital pro interior , e de lá prum interior ainda menor, e viveu quatro anos sem ar-condicionado e foi a mais feliz sem precisar enriquecer o lattes?

A melhor parte em todo esse relacionamento esquisito conosco mesmo é quando a música toca e diz: I had never really known you/ eu nunca conheci você realmente

E a verdade é que nunca vamos completar esse quebra cabeça do autoconhecimento, e isso é genial porque sempre haverá uma chaleira no fogo, duas cadeiras puxadas e o “vem aqui, me conte sobre você”.

Engraçado é que quando eu comecei esse texto eu queria falar das anotações que fiz naquele moleskine de capa fofinha sobre a Elena Ferrante que eu tô lendo e sobre como eu não tô acreditando no tanto de identificação no texto e também que a Elena ama um pseudônimo… e a profundidade com a qual ela trata uns assuntos que parecem tão de superfície…

Vai ficar pra outra hora porque a música que atravessou a escrita

E o quadro

E a chaleira no fogo e na poesia

Deram o tom desse texto

(agora toca um piano lindo no final de julho com nome dum mês que ainda vem: September Song. Em total sintonia com meu humor porque pianos sempre rimam com todos os meus humores e com essas conversas que eu invento nos finais de semana.)

¹a playlist no spotify é “Nights in Bed”, de Alicianeres. Todas as músicas preenchem uma manhã ou uma tarde. Já iniciei o sono com elas, já atravessei a cidade, tomei café com biscoito de manteiga e goiabada e agora elas motivaram um texto – que é a coisa mais bonita num final de domingo: um texto e música de fundo;

3 comentários em “A amiga genial: eu não me importaria em colocar a chaleira no fogo por você.

  1. Esse processo de autoconhecimento parece eterno. Lado bom é que vamos conhecendo várias pessoas diferentes ao longo da vida, que no caso é a gente mesmo. O lado ruim é igual ao lado bom.

    Amando seu blog. Quero ler sobre Elena Ferrante, amo essa mulher, amo essa tetralogia.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada!!! Sim, todos esses heterônimos que carregamos conosco descascados assim que vamos nos conhecendo são tb uma delícia. Quanto à Elena Ferrante, depois de ter topado com as capas dos livros dela várias vezes na entrada de livrarias e não ter em nenhum momento vontade de lê -los, eis que, depois de ter passado os olhos em algumas entrevistas e textos da época em que eles foram sucesso, senti uma pontinha de identificação; sobretudo porque a autora não revela quem de fato é, algo que eu percebi que gosto muito. Comecei a ler “A amiga genial” e estou obcecada pela forma como ela aprofunda os assuntos. Acho que vou escrever por aqui à medida que for lendo tudo! Abraço

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      1. Que bacana! Terminei a série de livros no início desse ano, queria falar sobre eles, mas não deu. Ou não parei realmente pra organizar meus sentimentos sobre essa história, rs. Sempre fico curiosa com as opiniões sobre ela. Vou esperar seus comentários então .
        Um abraço!

        Curtido por 1 pessoa

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