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Um choro e um chão: Zé e Pixinguinha cantam a ‘carinhosa’ de 2001/2002

É difícil acreditar que Carinhoso (Pixinguinha&Braguinha) não fez sucesso de imediato; e que assim que a melodia foi composta, Pixinguinha a deixou numa gaveta por pelo menos dez anos. Parece que ela só começou a ser o sucesso que é até hoje depois que Braguinha – a pedido da atriz e cantora Heloísa Helena-, às pressas, escreveu a letra (para uma peça) e assim, mais tarde, gravada por Orlando Silva Carinhoso estourou.

Pois comigo ela estourou de imediato. Tanto que aos quinze anos, ao menor sinal duma paixonite avassaladora pelo sobrinho do meu professor de filosofia – que foi juiz do interclasse de futsal na época-, estava eu gastando minhas fichas no orelhão do pátio da escola e cantando os primeiros versos desse choro pro rapaz de quem eu não desgrudava os olhos na época.

Depois do treino na aula de educação física, estava eu bem transgressora, cabelo preso no alto, uniforme de futsal, meião e caneleiras, bochechas rosadas… fôlego de artilheira…

e estava também aquele trecho do poema de Vinícius: “pequenos medos e grandes coragens”…e tinha também o trecho de Carinhoso:

“Meu coração, não sei por que
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim
Foges de mim”

Dava uma lira o que foi ter quinze anos no primeiro semestre de 2001 pra mim. Nós estávamos no meio do campeonato da escola a que eu me dedicava o ano inteiro desde que comecei a jogar futebol. Levava muito a sério a minha posição de atacante do time e as três medalhas de ouro do campeonato do ano anterior. Não planejava ter as bochechas rosadas e os “olhos sorrindo” perseguindo um rapaz tímido que apitava os jogos no nosso interclasse daquele ano. Impulsivamente liguei pra ele depois de um treino de educação física e dediquei a primeira parte da canção.

Depois do trecho de “Carinhoso” por telefone e uma carta caprichada entregue em mãos, numa sincronia com a letra do Braguinha da qual apenas me dei conta depois, o rapazinho fugiu de mim. Ele disse que não poderia corresponder aos meus sentimentos. Eu tinha 15 anos, sorri e respondi: “tudo bem, eu só queria que você soubesse”. Essa paixão já havia sido resolvida. Durou o campeonato inteiro e só ficou mais fácil depois da carta e quando eu entendi que o que eu queria mesmo era esse amor não realizado ( mas muito bem confessado) e que ele soubesse como eu era tão carinhosa e corajosa que daria a ele parte de uma canção que eu amava… eu não sei se ele não deu foi conta de tanto carinho. Na verdade eu nunca pensei muito no que tinha feito na época, tudo parecia muito prático: ou eu dizia o que sentia ou ia morrer de paixão.

Depois eu só lembro de me apaixonar por uma outra música (Chão de Giz, Zé Ramalho) que me foi apresentada por um outro moço da minha sala. Ele disse dum jeito bem maranhense: “tu parece Chão de Giz, do Zé Ramalho. Espalha coisas por onde passa”. Fiz o que toda pessoa carinhosa faria depois dessa confissão: degluti tudo sobre Zé Ramalho e foi paixão à primeira ouvida. Ter dezesseis anos também foi bem intenso. Fui de Guns à Zé. Nada escapou. No final desse mesmo ano em que Chão de Giz e tudo que Zé Ramalho cantou entrou pra playlist de 2002, o rapaz que me fez essa metáfora tão bonita ia deixar a cidade e eu o agradeci…muito mais por ter me apresentado o Zé do que por ter me feito aquela comparação. Foi aí que eu lembrei das fichas gastas com o rapaz de “Carinhoso”. Que ele não estivesse disponível para uma paixão, sim, mas e o que fez com a canção? Se engavetou o primeiro trecho dum Pixinguinha cantado por telefone e minhas bochechas rosadas, isso seria inadmissível.

A minha temporada do campeonato de futsal 2001/2002 foi basicamente isso. E o ano seguinte também…o questionamento do último post permanece: o que é real e o que é inventado no ano em que Orlando Silva cantou Pixinguinha pra mim e eu cantei, gastei fichas e espalhei coisas sobre um chão de giz?

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