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Desdobramentos: pasma de tudo.

Trecho da entrevista da Matilde Campilho para a Vogue Pt

O “pontinho real” ( a fixação da memória) pode ser uma palavra, um trecho dum livro que vc lê no domingo, uma playlist bonita do you tube ou spotify, um segredo que só o seu coração conhece, o mar quando visto do banco mais alto do Circular 1 na ponte do São Francisco, a beirada dos telhados qd vc atravessa a Praia Grande, a plaquinha do Poeme-se no ‘Reviver’, a pulseirinha do reggae nas barraquinhas-hippies, as miçangas coloridas e miúdas, a camisa com a Nina Simone, as pedras de cantaria, os azulejos incrustados nas paredes com os nomes das ruas, aquele dia que a gente veio do curso de inglês e viu um quadro sendo pintado lá no Odylo, o moço que gostava de Caetano e limpava a vitrine, o último dia daquele emprego que vc pediu demissão, uma entrevista da Matilde Campilho na Vogue, as postagens-inpiradoras-de pessoas-inpiradoras lá no instagram (e aqui nos blogues), os stories que tiveram continuidade num poema, stories que viraram cena de um livro, stories que falam. Aquele dia no cais, em São José de Ribamar, tanta gente, tantas pedras novas e só uma lembrança: a barraquinha improvisada, o peixe frito na hora e a história do casal que caiu no mar com o carro e talvez um só coração. A Raposa, onde vc sonhou morar e ter uma fazenda de porcos. Aquele dia em que cravou no peito, ainda infante, que ‘tarioba’ era um prato perfeito. O dia em que só quis vestir tricô. O sorvete de coco. O ferry daqui pra Itaúna. O frio na barriga deitada no chão desse ferry. As janelas do ferry. O gosto de ostra no cabelo. O cheiro de sal nas sardas, nos olhos. Barcos: qtos barcos não foram desdobramentos? Qts navios não viraram amores e poema? O Mar, a obsessão. Os desafetos: odiar o mar e a Praia Grande numa tacada só. Fazer as pazes: amar a Praia Grande de novo. Escrever para o mar. Ser a Sophia de Mello Breyner e se banhar no mar fictício lá na praia do Aracagy. O cabelo alheio. O jeito da pessoas de lado. Rodoviárias. Esperas. Chão de terra. Flores. A estrada até Barreirinhas: silenciosa. Café adormecido de posto de gasolina. Espelhos decadentes. Bife de fígado de restaurantes afetuosos. Arroz quentinho com sardinha e limão(de madrugada). Desdobramentos: o que é real? O que é inventado?

4 comentários em “Desdobramentos: pasma de tudo.

  1. O mar de Sophia é tão real quanto o meu, ainda que ambos literários. No entanto, um dia, o tive inteiro para mim. Praia deserta, água tépida, tirei o maiô, coloquei enfiado no braço e mergulhei nu. Durante minutos de eternidade, fui um com ele. Ocorreu na Praia Grande, mais uma entre tantas…

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