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Sobre café e biscoitos de canela . Cartola canta a minha travessia: ponte para a vida.

Janela para telhados, janela para a banheira vitoriana, janela para o céu

Eu ouvia Cartola enquanto atravessava pela milionésima vez a ponte do São Francisco. Ela liga duas partes da cidade, uma bem antiga e outra em que tudo são prédios, vidros e vez em vento um neon. Eu queria que vocês vissem como essa ponte é linda.

Então eu ouvia Cartola e ele dizia:

“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver”

Atravessei a ponte num junho festivo e quente pra comprar biscoitos de canela. Fiz isso como quem “precisava ir”, como quem queria “ver as águas do rio correr”. Por acaso essa ponte se deita sobre o encontro do rio com o mar. Por acaso Cartola foi a trilha sonora de antigos rituais que eu me colocava a cumprir quando morava na ilha: atravessar o que quer que fosse para procurar, para viver.

Biscoitos de canela e café quentinho: Felicidade clandestina como o conto Clariceano. São 15:33 e São Luís está quente como a vida inteira. Corre um vento do mangue que fica aqui perto, mais embaixo. Eu sinto, colocando o dedo na boca e depois no ar, o gosto de sal, limão e…”ostra!!!Isso mesmo!Ostra” Eu estou sentada no primeiro batente do alto da escada da casa de minha mãe. A escada dá para um sótão. A janela – que se volta para telhados e para a banheira vitoriana da vizinha, abandonada no meio do quintal-, é um mirante. Daqui eu “ouvi pássaros cantar”, vi pedaços do sol nascendo ou se esvaindo… Aqui eu refaço caminhos. Muito se escreveu no topo dessa escada.

Então é verdade que mesmo que precisemos andar acontece algumas vezes de voltarmos para os mesmos lugares?

Eu sorri com essas ‘coincidências’ e com essa questão que brotou de algum heterônimo

Mas também chorei – como sempre o fiz – porque café com biscoito de canela é de uma beleza sublime…e no fundo, mesmo tendo saído por aí para “me procurar”, eu ainda estou aqui. Aquela moça que atravessava pontes, a cidade, a vida para ver beleza, pra sentir o coração bater mais forte, pra sorrir sozinha sentada no banco mais alto do “Circular 1″…ela ainda está aqui…

“Quero viver”

11 comentários em “Sobre café e biscoitos de canela . Cartola canta a minha travessia: ponte para a vida.

  1. Adorei, maravilhoso, porque biscoitos de canela e café são um par perfeito e também porque é preciso andar e voltar para os mesmos lugares para que nos encontremos conosco e com os outros, na vida, na arte, na análise, enfim… Abraços!!!

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  2. Eu viajei aqui em vossas linhas, por mim, em mim… recordei a infância e as andanças que sempre embalei dia após dia para encontrar-me e também me perder. Revi lugares, revi olhares, revi o tempo, o sonho, cenários antigos-novos. Os pés e seus diferentes tamanhos e a canção que no repeat falar de sabores, agora preciso de biscoitos de canela.
    bacio cara mia

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  3. Eu bem que andava carente de um texto bom, desses que ao final da última linha a gente lamenta ter chegado ao fim… E o seu texto, também bom, deu-me a resposta que andava procurando. Lindo. Delicado. Cerimonioso, até. Porém, verdadeiro! Abençoada, seja…

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