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Jazz na terça

“Cozinhar com simplicidade, comer com abandono”. Eu li esse trecho no livro da Gabriela Barreto, “Como cozinhar sua preguiça”, e já na apresentação ela sugere “a doçura de não fazer nada” (o delicioso  charme do ócio) como caminho para uma cozinha simples, ingredientes honestos e a Billie Holiday tocando ao fundo. É esse tipo de cozinha de que gosto: a despretensão, o improviso, o jazz. Em vez da Billie Holiday, optei pelo toca fitas do Basquiat (pintor neoexpressonista norte-americano de ascendência afro-caribenha): “the eclectic taste of Jean-Michel Basquiat” ( o gosto eclético de Basquiat, no Spotify). Foram quase 50min do preparo dos ingredientes até o prato ir p/ o forno. Peguei alguns dos vegetais que haviam chegado ontem – quase todos do pequeno produtor -, mais o que houvesse na geladeira, dois filés de peixe e os temperos que fui escolhendo todos por pura intuição, perfumes e as cores que eu queria. Eu cortava os primeiros anéis de alho-poró quando Charlie Parker começou com “Ornythology”. Eu apenas pensei que só havia cozinhado antes ouvindo as meninas do jazz, vez em vento Louis Armstrong – apenas porque gostava de quando ele e Ella cantavam juntos-, mas nunca havia ouvido Charlie Parker enquanto decidia o melhor jeito de cortar os vegetais. Foi bom que Parker tenha sido o primeiro pq Ornythology me pareceu festiva e eu comemorava estar na cozinha intuindo aquele prato. Então tocou Bach e eu picava o alho na ponta da faça. Me senti numa adaptação de Jane Austen sem as canções de Dario Marianelli, mas que aqui gentilmente davam lugar a Bach, por quem me apaixonei primeiramente pq soa bonito o nome inteiro: Joahnn Sebastian Bach. Era Bach que tocava mas eu swingava enquanto punha quatro ovos para cozinhar e escolhia os pimentões mais bonitos: eu faria um papilote ou peixe assado no forno com vegetais. Depois de marinado com bastante alho, sal, azeite, limão e um mix de pimentas era chegada a hora de dispor peixe e vegetais na forma. Beethoven encerrava a sonata 32 para piano ( bendito Basquiat!) quando eu confesso que ouvi um trompete. Era Miles Davis, justo ele, justo “Blue in Green”…decidi que para fazer jus ao mito criaria um molho tão improvisado quanto todo jazz do mundo: néctar de Coco, vinagre balsâmico, algumas pimentas e gergelim. 10min de forno, 7min de grill…acho que pari um jazz e hoje nem era sexta.

3 comentários em “Jazz na terça

  1. Sabe que adoro ir para a cozinha depois de fazer a feira? Chego com os legumes frescos, aquele cheiro de horta e recordo a que eu tinha no quintal. Vou cortando, picando e misturando sensações de ontem e hoje é vai tudo junto para a panela. Adoro. Cada dia invento uma coisa. Ontem foi a noite do risoto. Adorei vosso post.

    Bacio

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