Se esse texto fosse um quadro de Dalí( ou A mad writing party)

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Ainda que os episódios em que eu não lembro o que “fui fazer mesmo ali na frente da geladeira” sejam agora tão rotineiros, ainda que eu tenha esquecido a moto destravada na frente de casa por uma madrugada, ainda que o coração tenha ido parar na boca quando deixei uma panela de ágata no fogo por quatro horas e peguei o rumo da rua, como quem fosse viajar (como no poema de Quinana, ou eh naquela música dos Los Hermanos?), não maldigo ainda a minha memória. Já sanei a dúvida: não se trata de nenhum tipo de Alzheimer precoce.

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Tem mais a ver com a mente acelerada, as noites insones, a fibromialgia. Se por um lado ( o mais prático) ela me trai, por outro (o mais subjetivo, onírico e poético) ela tem me servido bastante. É que ás vezes a memória saudosista resgata – lá do lugar para onde elas vão quando as coisas dormem-, uma comida especial, os detalhes de uma cozinha, as mesas que serviram de palco para algumas das leituras mais decisivas e importantes, as primeiras vezes de um prato ou os livros que foram lidos num só dia ao lado de um sanduíche apressado com café. Foi sobre a mesa de uma cozinha apertada, por exemplo, na casa de meus pais, que li um Gabriel Garcia Marquez – era nessa mesa de mármore que a minha mãe sovava massa de pão todos os dias pela manhã. Lembro também de uma outra mesa gigante, na casa da minha vó, e da primeira vez que comi pão artesanal nela. Foi lá também que eu li uma meia dúzia de livros infantis que havia encontrado guardados num baú que foi da mãe da mãe da minha mãe e hoje é meu.

Essa mesa do meu lado paraense era farta, generosa, madeira pura, gigante, pra família toda e quem mais passasse por ali… brilhava depois de um bom lustre. Na ponta dela ficava sempre a minha vó: cabelo bem curtinho, pescoço à mostra, traquinha de miçangas brancas miúdas, gorda, bem gorda, bem ancuda, sorriso pequeno. Nesse lugar, cedido pela minha vó que, ouso suspeitar “montou aquela cena toda de “livros-esquecidos- no-fundo-dum-baú”, eu li “O pequeno polegar”, comi açaí com farinha de tapioca paraense, almôndegas (pela primeira vez, sem prévias explicações, só um prato com arroz branco quentinho, várias daquelas bolotas que explodiam na boca e muito, mas muito molho vermelho…) pão feito em casa, café preto e pupunha, maniçoba, tacacá…é um repertório gigante: eram as férias de julho na casa da vó paraense.

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Tem uma outra mesa que aparece no saguão da minha memória todas as vezes em que passo por essas moças que vendem bolo na porta de casa: lá eu comi o bolinho de milho que só a minha bisa me dava pela manhã quando eu dormia na casa dela, e sempre tinha um café preto delicioso. A mesa era bem pequenininha, pra dois, coberta com um plástico decorado. A cozinha era bem escura, fria, úmida, tinha um jeito meio gótico, um jeito que eu também gostava, e isso realçava mais a harmonia do bolinho de milho com o café.

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E tem também a mesa da minha vó Maranhense…a mesa italiana, a mesa dos tios e tias com a gargalhada mais farta do planeta. Às vezes eu achava que havia algo bem italiano nesse lado da família. Tudo era largo, grande, espalhafatoso. A mesa era oval, de madeira escura e serviu aos almoços em família no domingo, reunião todas as nove pro café, jogo de cartas, bolo feito a mil mãos, brincadeiras de primas, segredos de primas. A minha vó do lado Maranhense é boleira e doceira que nem a Cora Coralina. Ela fazia poesia com as mãos e passou os versos adiante pras filhas e noras .Eu gosto de lembrar que quando um casamento ia acontecer todo mundo metia a mão na massa. Era incrível…principalmente os “fios de ovos” e depois o brigadeiro…e aquela gritaria toda, a gargalhada…a comida unindo pessoas e no final aquele bolo de vários andares lindo.

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Hoje eu tenho a minha cozinha, ainda que de uma casa alugada. Mas é nela que vez em vento tomo tempo pra pensar e que também me sinto feliz…às vezes encosto na pia e leio algum trecho dum poema…ás vezes eu paro diante dos potes de temperos quando o sol entra e acho tão bonito como a composição de luz e sombra forma outras cores que eu não via antes ali. A cozinha, a mesa, a luz amarela sob ela, as pias…esses espaços são inexplicáveis, são breves e ao mesmo tempo longos, nunca se esgotam…

Outro dia chovia – como devem ser as sextas-feiras. A minha cozinha tava com um jeito bonito, sentada no canto da casa, de pernas cruzadas, comendo um croissant de doce de leite com um copo gigante de café. Eu fiquei olhando pro tipão dela ali e senti um orgulho meio bobo pelo modo como ela encerrava a semana tão dona de si mesma; uma cozinha da moda, empoderada. Resolvi abrir um vinho branco – mais um que parece brotar na casa. Nunca lembro como os vinhos aparecem por aqui, tenho certeza que não são imaginários e há algo de Borges nessas aparições , mas ocorre que, à parte isso de origem, eles sempre harmonizam com o momento, a comida, e os textos que surgem depois deles.

Em vez de música, coloquei a agulha sob o barulho da chuva, afinal, faz tanto tempo que não se ouve a primeira faixa duma chuva forte por essas bandas que até a Bethânia gentilmente sairia da capa do vinil e cederia seu lugar a ela. Abri a geladeira segurando a taça miúda de vinho numa mão e olhei demoradamente ali pra dentro daqueles becos e ruas. Já aconteceu de pensarem melhor diante da geladeira e um frio escalar todo o corpo e os pelos se eriçarem? É o efeito de estar sozinho…e de gostar disso. Senti a mesma coisa lendo aquele Garcia Marques. Era por volta de 2006. Também lembro d arrepio assim que, na mesa chique de vidro da casa da minha mãe, havia lido Frankenstein e A Metamorfose sem vacilar. Na cozinha dessa minha nova casa já me debrucei sobre todo tipo de poesia, mas a mais bonita delas foi me ver ali, sentada, pernas cruzadas, encerrando uma semana, um mês, anos…Chovia, como deve ser a poesia. Tinha música de fundo. Senti o peso da agulha. Tava tudo muito bonito e eu era a capa do meu próprio vinil.

Mas o que eu fui fazer ali mesmo, na frente da geladeira?

2 comentários Adicione o seu

  1. Mariana Gouveia disse:

    Que lindo!

    Curtido por 1 pessoa

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