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Um céu de Van Gogh

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Reprodução despretensiosa, em guache, de “The starry Night”, Van Gogh.

HAIA (DEZEMBRO DE 1881 – SETEMBRO DE 1883)

“Não conheço melhor definição da palavra arte que esta:’a arte é o homem acrescentado à natureza’; à natureza, à realidade, à verdade, mas com um significado, com uma concepção, com um caráter, que o artista ressalta, e aos quais dá expressão, ” resgata”, distingue, liberta, ilumina.”

Van Gogh em carta para o irmão Théo, junho de 1879.

VERMELHO: o primeiro impressionista

O primeiro pintor a que me afeiçoei foi Renoir. Eu não lembro que idade tinha, mas já gostava de modificar coisas, escrever cartas e desenhar nas páginas do meu diário com giz de cera. Eu guardava debaixo da cama uma caixa de madeira – coberta com um tecido vermelho, com uma estampa de galhos de cerejeiras em flor-, que lembrava as paredes de um teatro antigo da minha cidade. Dentro dela, com alguns recortes de poesias, fotografias e frases que eu coletava de revistas, estavam três quadros de Renoir que eu tinha recortado de um livreto empurrado por debaixo da porta.

O livreto era uma propaganda de um condomínio que seria construído na beira da praia em São Luís. Naquela época havia poucos prédios perto da praia e o livro-brochura foi todo produzido num papel especial, brilhoso, de um jeito que fazia a gente querer morar dentro dele. Eu já tinha visto a Mary Poppins entrar nos quadros e não parecia tão difícil assim; além do mais, sairia bem mais barato morar numa gravura de praia do que comprar um apartamento no “luxuoso e impressionante Condomínio Renoir”. Abstrair sempre foi o meu forte. Não comprei nenhum apartamento mas recortei os três quadros de Pierre Renoir do livreto e colei todos na parte interna da caixa . Eu nunca havia lido ou visto algo sobre Renoir. Um dos quadros eu achei solar e alegre, depois eu gostei das pinceladas, eram quase como que pudéssemos vê-las acontecendo – como se apontassem para o caminho que o pintor percorreu; daí, por último, eu gostei de saber que elas não tinham “cercas”. Em geral, quando a gente começa a desenhar na escola ou em casa, os traços fortes do lápis ou da caneta cercam as cores que vamos depositar ali dentro, mas as pinturas de Renoir podia sair a qualquer momento, não estavam presas a um contorno. No fundo acho que essa transgressão me capturou mais do que as cenas representadas ali. Não sei ao certo, mas a minha paixão por pintura pode ter começado aí. Se não, ao menos a paixão pelos impressionistas ou por não ter “cercas”, ou por paisagens solares e alegres.

VAN GOGH: O PINTOR DE NOITES ESTRELADAS E GIRASSÓIS

“Se você ouve uma voz dentro de você dizendo ‘você não pode pintar’, então pinte e essa voz será silenciada.”

Eu sei que eu tive minhas fases azuis e rosas como Picasso, pintei meus diários como Frida, chorei ao ver Modigliani no cinema e fiquei tão impressionada com o Abaporu de Tarsila que tentei reproduzir um bem pequeno pra mim na tela com tinta a óleo. Pendurei no meu quarto, ao lado do óculos de Fernando Pessoa que eu havia pintado e mais uma meia dúzia de mini quadros de jarras e xícaras em tons terrosos. Hoje meu Abaporu anda perdido e isso confere à minha primeira reprodução um certo glamour de obra de arte desaparecida. Bons tempos esses em que eu ostentava quase quinze pinceis e pintava xicrinhas.

Sobre Van Gogh eu não guardo na memória a primeira vez que vi uma obra dele, nem como essa paixão começou. Mas se você acredita na Mary Poppins, vai acreditar que havia muito de Van Gogh na minha vida antes mesmo que fatalmente eu me apaixonasse pelas obras dele:

  • eu já gostava de girassóis – que só conhecia pelas fotografias-, eles eram pra mim mais impossíveis do que entrar no quadro como a Mary Poppins;
  • tive uma fase “lua”, uma coisa de ficar olhando pro céu. Até porque meu quarto tinha uma vista bem legal já que era no último andar da casa. Ficava bem depois de todo o telhado, uma espécie de sótão com uma janela enorme gradeada. De lá dava pra ver o mangue, as casinhas bem longe e, em agosto, um Ipê amarelo;
  • Minha mãe tinha o lóbulo de uma das orelhas rasgado. Na época eu achava estranho como ela falava disso tão naturalmente e fazia piadas quando tinha que escolher um brinco. Minha mãe é impulsiva e vulcânica. Aposto que esse lóbulo rasgado tem a ver com um de seus muitos episódios viscerais. Ela também tem tino pra trabalhos manuais, criativos e artesanais. Talvez seja coisa de artista isso de rasgar a orelha;
  • As estrelas sempre me pareceram borradas quando eu tirava os óculos e via o céu à noite… elas não tinham contornos bem definidos, nem cercas. É mais míope que eu quem acha que estrelas precisam ser representadas com pontas e uma amarelo bem intenso. É mais o jeito como você vê que conta.

“Não me surpreende que as circunstância que enumerei fosse errôneas (…)” Borges

Foi com Borges que aprendi a não temer se as circunstâncias em que uma obra ou um poema nos tiram o fôlego são tão inverossímeis assim, o que importa mesmo é a revelação que esses encontros nos causam. Tenho paixão por tantos pintores, mas é Van Gogh a quem estimo mais. Enquanto faço uma reprodução em guache de “A noite estrelada” , releio algumas cartas que Van Gogh e o irmão Théo trocaram. O pensamento estético do pintor, a obsessão por alguns temas, o estudo de cores e paisagens, o material que usava para pintar, o modo como intuía os lugares por onde passava, as pessoas, as flores e os campos estão todos belissimamente transcritos nas cartas – que são uma obra poética à parte. Um trecho dum poema de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa – e meu favorito-, é que me vem à mente por captar a habilidade que Van Gogh tinha de carregar consigo uma percepção muito vasta, sensível e única da vida:

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

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Foi a vista da janela do quarto, no hospício de Saint-Rémy-de-Provence, que Van Gogh retratou em seu “A noite estrelada”. Há fontes que dizem que ele apenas desenhou o esboço com papel e carvão e a pintura foi produzida em um outro quarto do hospício ,que era usado exatamente para esse fim. Nas cartas encontrei várias referências a esses momentos em que Van Gogh busca retratar o que vê da janela. Um exemplo é essa carta de maio de 1889 : ” Que dizer de novo? Não tenho muita coisa. Tenho em andamento duas paisagens, vistas tomadas das colinas, uma é o campo que vejo da janela do meu quarto. No primeiro plano um campo de trigo devastado e atirado ao chão após uma tempestade. Uma cerca e além do verde cinzento de algumas oliveiras, cabanas e colinas. Enfim, no alto da tela, um grande nuvem branca e cinza imersa no azul.”

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Cipreste, uma das obsessões de Van Gogh

Os ciprestes são citados algumas vezes nas cartas de Van Gogh e parecem ser uma das obsessões do pintor que admira sua forma e acha importante que sejam pintados como são vistos (há que lembrar aqui que aos Impressionistas importava que a pintura registrasse a cor dos objetos de acordo com a incidência da luz naquele instante. Van Gogh foi um pós-impressionista ): “Os ciprestes sempre me preocupam, gostaria de fazer com eles algo como as telas dos girassóis, pois me espanta que ainda não os tenham feito com eu vejo. Como linha e como proporção, é tão belo quanto um obelisco egípcio. E o verde é de uma qualidade distinta.”

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A última parte da minha reprodução foi a vila, que na verdade não existia na paisagem originalmente, apenas no imaginário de Van Gogh. Alguns acreditam que essa vila seja a mesma da infância do pintor ou a de Saint-Rémy. Não há como obter as mesmas cores do original (tinta óleo) em guache, ainda assim, foi divertido tentar alcançar os tons, misturar cores, brincar com as possibilidades e até imitar as pinceladas. Às vezes eu refazia inúmeras vezes uma parte porque achava sempre um jeito melhor de pincelar e quando via que ficava parecido com o original, pensava que talvez tivesse sido assim que ele havia segurado o pincel, ou que esse tinha sido o caminho percorrido.

Mais do que pisar sobre as pegadas de Van Gogh, como seu eu tivesse algo a dizer para ele, uma última carta a entregar (o filme Loving Vincent é basicamente isso), descobri que, no fundo, eu tinha coisas a dizer para mim mesma. “Paciência é uma virtude”: Foram dois meses pra pintar passo a passo esse estudo/reprodução em guache. Nesse ínterim choveu tudo o que não havia chovido por seis anos aqui no sertão. No Maranhão, 25 graus é meio que “Winter is coming”… e quando tá um calor ameno, estamos falando de 30 graus…de resto só conheço 32 graus pra cima. Enfim, por conta da minha fibromialgia, temperaturas muito exageradas, ou a dança do clima louco, me deixam totalmente vunerável. Sinto dores, fadiga e o humor oscila. Foi no meio dessa novela toda que pintei meu “the starry night”. Algumas dessas vezes me renderam noites deitada no chão olhando pro teto, outras na bola de pilates, olhando o mundo de cabeça pra baixo; ainda outras me fizeram esquecer as dores por algumas horas. Renoir pintou muito na velhice, ainda que a artrite houvesse limitado o movimento das mãos…ele até amarrou um pincel nelas…Van Gogh tinha muitas dores emocionais e amarrou-se à sua arte até a morte. Não digo que vou me amarrar a algo, nunca planejo isso…os acontecimentos atravessam minha vida…comecei a pintar nos meus diários, depois quis manter isso como tradição quando li o Diário de Frida e fui tocada pela força dela (coincidentemente dizem que depois do acidente ela passou a sofrer com a fibromialgia)…quando tinha uns 21 anos, e já estava no meu primeiro emprego, costumava pintar no meu quarto uns mini quadrinhos em tinta a óleo, era algo que gostava de fazer pra passar o tempo. Assim que recebi o diagnóstico de Fibromialgia, pra lidar com a ansiedade , pintava ininterruptamente em aquarela e, depois de um hiato de seis anos, voltei a desenhar, pintar e até separei um quarto na casa para ser o meu cantinho Jane Austen- uma espécie de sala de leitura, chá e também um ateliê confortável que cheira a tinta, velas e tem uma janela de vidro que dá pro jardim de inverno.

Anna Karina, a musa do Godard

A parte mais legal de tudo isso é que agora eu tenho 33 anos, voltei a pintar, ainda que em meio a uma crise de dores, e me sinto bem e confortável para mostrar isso às pessoas. Em breve estarei produzindo meus próprios quadros, mas antes havia essa necessidade de reproduzir esse Van Gogh para colocar na minha sala. Essa sala desses meus 33 anos que “têm me consumido com seus olhinhos infantis”. É que não dá pra explicar melhor o que tem a ver Van Gogh, voltar a pintar, 33 anos, dor, satisfação na vida, felicidade e a minha sala…mas se eu colocar todas essas palavras numa frase só, vc que me lê, que lê esse texto apressado…se vc tiver um pouco de sensibilidade, ah…vc vai entender…
“Esse papo já tá qualquer coisa”…

5 comentários em “Um céu de Van Gogh

  1. Ah, que delícia foi ler-te. Passeei por minha realidade, que se atrelou a sua. Relembrei diários esquecidos na gaveta. Aulas de música, pintura, costura. Páginas de revistas, com poemas de Pessoa, que encontrava nas revistas do dentista. Eu as arrancava com cuidado para não fazer barulho e chamar a atenção da recepcionista, que deveria ver meu gesto. Mas eram apenas poesias, as notícias que todos liam estavam a salvo. Elas não me interessavam. Depois recordei as cartas, escritas aos estrangeiros com quem falava de poetas novos. Eles me apresentavam um mundo e eu me deixava ir.
    Nunca pintei nada. Mas me apaixonei por Hopper que parecia entender minha necessidade de ser sozinha. Borges descreveu minhas sensações. Eliot me reescreveu e Baudelaire me ensinou a ver. ah…. viajei, como disse.

    grata, adorei saber-te, quem sabe um dia não lhe tenho em uma de minhas paredes.

    bacio

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ah, Lunna, que bom que gostou!!! Eu tb amo Hopper. Tenho uma fotografia que tirei que me lembra um dos quadros dele, uma moça sozinha num barquinho no meio do lago olhando pro nada, mas com um rosto triste, preocupado, em silêncio… Me sinto inclinada a pinta-lo um dia, mas as cores precisariam obedecer nosso fim de tarde aqui no Maranhão…apesar de que gosto muito das cores de Hopper, as quentes sobretudo. Enfim, obrigada por passar aqui

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    1. Oi, irina, então, é isso mesmo, amamos as artes. Eu gosto muito de pintar, fazer trabalhos manuais, ir a museus, exposições, conhecer os trabalhos de vários artistas. Eu não tenho técnica, mas tenho amor hehe. Na verdade eu ia estudar óleo sobre tela com um professor, mas acabei sendo sufocada por outras questões e isso está me impedindo , mas quero retornar ano que vem. Enquanto isso eu vou me aventurando na guache, acrílica, tinta de tecido e até óleo tb. Eu gosto bastante!!!

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