Amor, palavra útil

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Paz, palavra útil, poesia de Matilde Campilho em Jóquei

eu escrevi um poema triste pra Álvares de Azevedo

e depois enviei prum outro poeta que não estava nos livros didáticos, mas que dirigia uma associação de poetas que entendiam do amor e do amor pelo amor. Eu acho que não me expliquei, mas me pareceu que ele entenderia que não era o poeta, ou ele ter 21 anos e até ter morrido depois da queda de um cavalo, mas sim a poesia, o amor pelo amor, o tratamento dado ao amor. Eu era dada a gostar de amar o amor.

Estava lendo Matilde Campilho e lembrei de vc, Álvares

Não de vc, mas de mim quando eu gostava de como vc amava o amor
e de todas as coisas que eu fazia sozinha – pra comprovar que quando digo que tenho “um país só meu”, não é pra que essa frase fique bonita no instagram-, é porque eu gostava tanto de amar o amor que tive esse AMOR SEMIETERNO, que “faz escrever um punhado de versos”…
eu escrevi esses versinhos e aprendi também aquela música dos cursinhos de inglês, “Bizarre love triangle”, do New Order. Todas essas coisas aconteceram nos limites desse lugar em que estávamos eu, vc e a música do New Order…
A sua primeira aparição foi logo depois de uns quadros de índios e um texto sobre Rosseau.
A primeira gargalhada foi quando eu levei pra casa o meu ” Lira dos 20 anos”. Gargalhamos juntos.
E eis a estocada da memória: foi o primeiro título a que me apeguei. Sem me dar conta, iniciava aí um amor não pelo amor, mas pelos títulos. Eu esperei pelos 20 anos como a Matilde do poema esperava pelo capitão e suas 4 vidas transatlânticas…o tanto que eu desejei ter uma Lira e fazer 20 anos…Foi assim que eu percebi que a poesia era a vida…e que não dava pra desvincular uma da outra.
Houve muita coisa pra nós depois do primeiro amor (quando se tem uma idade tão bonita como quinze anos…)
o mês eu não lembro…mas durou pouco
durou até Fernando Pessoa, até o ano seguinte…
até o dia em que eu li uma poesia escrita no quadro e que falava sobre alguém contar do amor de um jeito que as palavras não pareciam nos seus lugares reais…
eu tava cansada do mesmo tom, Álvares.
e eu também quis amar as flores, a música, a vida…e você só queria morrer…
a poesia da Matilde, esse gesto indecifrável em que nada caiu no chão de nenhum lugar
eu ando lendo Matilde e sofridamente Nauro Machado ( a forma clássica)
desesperadamente Nauro Machado ( ele é tão hermético e tão menos como vc)…
a melhor poesia da minha vida
mas vc vai dizer que vai durar pouco…como se meu amor fosse bandoleiro…
só que vc não viveu tempo suficiente pra saber dos heterônimos
que é quando a gente quer muitas coisas ao mesmo tempo…
de outra vez te falo mais de Fernando Pessoa…
passo mais tempo com eles do que com saudades de vc…
mas hoje é domingo e eu poderia ver alguns dos meus filmes favoritos

Mas
estava lendo Matilde e lembrei de vc, Alvares…
“isso, para começo dos trabalhos já é mais ou menos um bom sinal”

detestei quando vc morreu, detestei qd vc desistiu, detestei que eu fiz dezesseis

2 comentários Adicione o seu

  1. obduliono disse:

    Absurdamente lindo… Eu também amo amar, ainda que não venha a amar especificamente alguém ou alguma coisa. Então, se estabelece a eterna contradição. O que não quero é que o meu amor por amar não seja praticado a esmo com alguém que não compreenda contradição que é amar por amar. Falando em Bizarre Love Triangle, eu amo a versão de Frente! –

    Curtido por 1 pessoa

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