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“é preciso ler Baudelaire/ é preciso colher as flores/ de que falam velhos autores.” Drummond

Vens tu do céu profundo ou sais do precipício,
Beleza? Teu olhar, divino mas daninho,
Confusamente verte o bem e o malefício,
E pode-se por isso comparar-te ao vinho.

(Baudelaire)

Morei 26 anos numa casa sem quintal e por todo esse tempo nunca soube o que era a beleza das tardes num quintal depois da escola. O silêncio dum quintal de casa só perde em ser demasiado bonito pra ouvir Dinah Washington antes de dormir.

Existe algo de Chardin em mim quando chego em casa correndo a tempo de ver o sol entrar na cozinha e poder testemunhar essas belezas crepusculares sobre a natureza morta.

Gosto também de lugares abandonados, musgos e plantas que resistem numa fenda entre tijolos velhos e massa de cimento que carregam uma história. Belezas condenadas me lembram o dia em que tropecei num pombo morto no chão. Ele era cinza e branco, tinha manchas de sangue no peito já murcho e a cabeça pendia de lado. Nunca havia tropeçado numa poesia de Baudelaire antes. Sim, aquele ali era um dos poemas de Les Fleurs du mal, livro que ganhei quando chegava aos dezenove , idade tão inquietante e violenta quanto Charles em seus poemas. Naquela época os versos já me tomavam como essa beleza condenada no chão…

Gosto de tudo isso que me faz companhia, é essa beleza que me comove…

Gosto de ler Rui Pires Cabral desde quando o encontrei virando uma esquina…

*O pombo-Poema é “a uma carniça”, de Charles Baudelaire.

(Poesia de Rui Pires Cabral na Revista Modo de Usar)

Um comentário em ““é preciso ler Baudelaire/ é preciso colher as flores/ de que falam velhos autores.” Drummond

  1. Viajei dentro e me perdi nesse abismo que sou e onde vivo em constate queda. Fui as quintas de mio nono e pulei no rio, subi árvores e vi a mesa posta para o almoço de domingo. Tem um poema de T.S.Eliot que me causa o mesmo efeito. É tao bom quando a poesia nos desabriga da vida e nos manda de volta para qualquer lugar que é casa. rs

    grata

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