Para toda dor há um encontro: manifesto-poesia em tempos de flagelo

write hard and clear

about what hurts

(Ernest Hemingway)

                    Meus traumas quando se trata de leitura obrigatória se resumem a provas cujo tema era Machado de Assis (eu não conseguia me sentir confortável em ter que ler Machado de Assis para responder a testes. Machado tem que ser deglutido lentamente …tem que ser prazeroso. Ele escreveu Capitu, a mulher cujos olhos oblíquos e de ressaca arrastam tudo para dentro…arrastou Bentinho, me arrastou, arrastou leitores do mundo todo!!! Que mulher!!!)  e quando eu precisei ter o Manifesto do partido Comunista na ponta da língua sob pena de não alcançar a média na prova bimestral e muito menos  a simpatia do professor que insistia em soltar umas indiretas só por eu ser de uma religião que, provavelmente, ele não conhecia nada sobre.  Tolerância não é algo que se decore, enfim. Naquela época internet era só a coisa das salas de bate-papo. Não existia orkut e eu nunca havia topado com alguém que era tão legal e ao mesmo tempo tinha um azedume, essa coisa meio hater, essa necessidade de superestimar as próprias opiniões.
Não me zanguei por causa do bullyng descabido…chateada fiquei em ter que engolir Marx e Engels em poucas semanas…assim, pruma prova que ia testar minhas habilidades em decorar um livro. Parece que digerir era muito estranho pressa época e estamos falando dos anos 90. Desde então eu prometi que nunca – nunquinha- leria um livro sem paixão. Daí vieram a faculdade e as aulas de latim. (me ferrei again) Eu gostava do professor, mas o método não era como os olhos de Capitu, não me arrastava pra dentro. Então toda aula de latim eu ia pra biblioteca e, perto dos exames, os livros de latim se tornavam ainda mais obrigatórios -xerocar cadernos dos colegas também- atravessar com vida as duas cadeiras, nem se fala.
De lá pra cá abandonei Ulisses quatro vezes, desisti de Os Sertões, parei de compartimentar autores e tipos de literatura, comprei livros nas Lojas Americanas e espero meu tempo para que um livro faça sentido. Não há regras. Três mulheres de 3 pppês (esse da foto), do Paulo Emílio Soares, foi assim: abandonado entre um Mia Couto que devorei e sublinhei e um Chico Buarque nunca terminado.

Parece que hoje as primeiras linhas fizeram sentido.

Parece que a gente escolhe livros por empatia.

Não fosse a fibromialgia, nunca mais teria encontrado esse Paulo Emílio na estante.

23 de novembro de 2017

 

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