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“Introibo ad altare Dei”

Segundas-Feiras agitadas (eu deveria ter escrito atípicas) são as melhores. (Vocês decidirão que partes de hoje realmente aconteceram e quais parágrafos apenas incrementam a narrativa.)

Acho que tudo começou quando, às 11h3 eu levantei num susto. Chás pra dormir e rivotril são uma combinação pesada. Na verdade acordei às 7h, li, voltei a dormir e acordei naquele susto com os trovões. Não choveu. Tentei criar uma lista mental do que eu precisaria fazer no resto do dia pra, pelo menos, parecer que, como o resto do mundo, eu estava começando a semana consciente de todos os segundos.

-droga! Eu dormi a manhã inteira. Eu deveria me sentir mal por isso?

Se eu já tivesse a minha vitrola, colocar um disco, passar um café na moka e sentir culpa no sofá pareceria uma cenário perfeito. Mas eu decidi que precisava comprar uma leiterinha prum projeto novo: produzir meu próprio queijo. Também planejei devolver o livro da Clarice Lispector e me encontrar com um outro. (Essa parecia ser a parte mais legal da minha lista)

Como de costume eu escolhi a primeira roupa que pulou do meu guarda-roupa e um sapato que não uso faz tempo. Não penteei o cabelo. Mas escovei os dentes, prometo.

No caminho parei prum café. Foram duas xícaras. Devia ser meio dia e alguma coisa. Eu esqueci que tinha feito uma lista e gastei duas horas em coisas não planejadas.

Acho que a gente tem um reloginho dentro da nós que avisa quando coisas legais precisam ser executadas. Senti uma inquietude. Mas pode ter sido só calor. A Biblioteca foi a primeira parada. Ela é pequena e linda como todas as melhores bibliotecas da minha vida. É uma descoberta recente. Ela sempre esteve lá, eu que nunca estive.

Tinham três mulheres que falavam alto. Eu não me importei. Só queria uma leitura nova. Achei que fosse demorar mais. Escolher um livro, no meu caso, não é uma tarefa fácil. Às vezes parece que meu coração não quer trabalhar. Mas por alguma razão, desde a primeira vez que pisei lá ele pulsou forte por Ulisses. E aqui começa a história dentro da história:

Eu já fui fascinada pela Irlanda, por lendas celtas, por James Joyce, gaélico, Escócia… Okey, eu tinha 16 anos, mas eu ainda amo a gaita de fole e tenho uma playlist de música escocesa no meu Spotify. Tenho sonhos com aquele descampado verde, verde-musgo e acho que trocaria o café por uma boa cerveja num pub desconhecido.

O fato é que James Joyce, e Ulisses mais especificamente, sempre foi um dos meus maiores desafios literários. Tá, dizem que ele é um dos livros mais difíceis da literatura moderna. Eis porque foi abandonado da primeira vez. Será que 15 anos depois estarei eu preparada pra ele? (Lembrem-se, alguns parágrafos podem ser meramente ficcionais, talvez eu não tenha 30 anos, talvez sim, talvez mais)…

O que posso adiantar é que, no meio duma chuva inesperada, iniciei o livro e meu coração disparou…(Por que a gente sente essas felicidades gigantes assim no meio duma chuva não programada?)…

Bem no meio do primeiro parágrafo surge essa frase em latim: “Introibo ad altare Dei”.

Eu estudei latim por um ano, mas estudei assim: na hora da aula eu ia pra Biblioteca. As aulas eram bem anos 70: verbos no quadro e por duas horas a turma inteira os repetiam num coro depois do professor. Vamos combinar que isso não é nada atraente, mesmo pruma língua morta. Acho que o latim merecia mais. O professor era um sujeito bonzinho e isso compensava a falta de jeito. Além disso, acho que ele entendia que eu precisava ter meu coração inteiro lá pra gostar de estar lá…daí ele garantia a minha presença (a ausência mais honesta que ele teve) na caderneta e em troca eu sempre perguntava como ele tava. Quando as provas começavam eu tirava xerox dos cadernos alheios, mas ele sempre me perguntava se eu tava entendendo tudo. Ele sabia que a Biblioteca tava sendo mais legal e sincera comigo. No fundo eu acho que ele tinha tido uma juventude aventureira também. Talvez o “latim” fosse a grana extra que ele precisava pruma viagem pra patagônia. Talvez.

Vocês já sacaram que eu não vou traduzir a frase não é?

Agora vem a parte que antecede a leitura das primeiras linhas de Ulisses. A parte em que eu compro a leiterinha, um prato de barro, uma lamparina à querosene e olho pra estrada e penso: Qual a graça de ter uma moto e morar num lugar cercado de verde se você não toma tempo pra sentir o vento no rosto e o sentimento de liberdade que veio junto com a carteira categoria A?

Então eu fui…esquentei o motor, não é assim que se diz? Eu testemunhei o exato momento do vento frio e o cheiro de natureza e terra molhada. Descobri finalmente que esses cheiros da casa da nossa vó no Pará sempre antecedem uma tempestade. Daí, de repente, choveu. Choveu forte que nem aquelas felicidades enormes que inundam a gente quando um livro começa com uma frase que te arrasta pra dentro dele feito o mar e os olhos de Capitu.

Choveu e em algum momento dessa chuva, não sei encaixar bem na narrativa, uma amiga passou café num bule antigo gasto e romântico e me ofereceu com biscoitinhos. Eu seguia firme na dieta e não posso exagerar com trigo, mas pensei que café num bule antigo, Ulisses na mochila, um pedaco de queijo que eu tinha comprado, felicidade num formato de borboletas dançando na barriga….”acho que isso não engorda”…

Meu Deus, eu sinto tanto…e em algum momento eu também li algo bonito sobre “a lua, estrelas, galinhas que dormem em árvores”…nem sei como o moço que escreveu isso disse em algum lugar “que não era nada de importante”.

Meu Deus, repito, eu sinto tanto…A qualquer hora dessas eu posso explodir de felicidade. Não vou mais questionar essa parte em mim que não deu bola pras aulas de latim, mas que pulsa fortemente porque comprou azeite de coco e sente frio como se estivesse no meio dum livro dum autor Irlandês…

Talvez por isso Alice de Lewis Carrol seja um dos meus livros favoritos: porque eu também seguiria um coelho falante e também acharia o máximo cair num buraco com estantes de livros nas bordas…

Pra onde vai essa história? Não sei. Talvez eu ainda esteja dormindo e tudo não passe de um sonho.

Ah!!! como eu queria que a minha vitrola já estivesse aqui…sonhos com trilha sonora em segundas agitadas são sempre os melhores!

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