“É de lirismo verdadeiro que precisamos…”

 

Não há nada que me pare tanto como a vida nua, crua, direta. Talvez seja por isso que, quando ela se materializa em palavras eu aprecie a crônica, e quando ela se condensa em imagens, o documentário e a fotografia me fascinem tanto. O que a gente gosta na vida é quando ela nos lê, nos desarma, nos confronta e também nos aninha. Se o texto é um reflexo do que vivemos aqui fora, é natural que gostemos dos mais provocativos e até daqueles que nos fazem sentir confortáveis, dos que nos apreendem tão bem. Hoje vou falar da Martha Medeiros e do meu ritual de sempre querer um texto confortável dela para os dias de ócio.

Martha fica absurdamente mais incrível quando o que ela escreve se encontra naquilo que eu acreditei mais fortemente naquele dia, ou no hoje, por exemplo. É que eu andava pensando em como as pessoas precisam de eventos gigantescos pra que eles atinjam o status de ‘marcantes’. Precisa ser um casamento, uma viagem pra Marte, se jogar do alto de uma cachoeira…são os “viciados em novidades”, Martha escreveu. Não que não se possa gostar do que causa impacto, mas “perder a capacidade de comover-se com o banal” nos torna pouco “contemplativos”.

Talvez seja a correria e o culto ao estilo de vida apertado em que não temos mais tempo pra nos comover com as miudezas. E quando saímos um pouco da curva, quando sentimos demais, quando a comoção sobra em nós, há quem nos veja como exagerados. Há algum tempo em falo que adoraria voltar à Belém. Sinto uma necessidade de me reconectar com as minhas origens. Tenho vontade de perambular pelo famoso Mercado do Ver-o-Peso de madrugada, provar do açaí fresquinho, sentir o cheiro de rio, tomar do café com pupunha e também de vibrar por dentro com as cores, as texturas e a sabedoria do povo . Quero relembrar de quando vi a árvore imensa na entrada do Bosque pela primeira vez -um pedaço da Amazônia tão real que eu precisei me recompor porque senti uma comoção tão forte que não cabia em mim. São situações assim que nem conseguimos explicar, tão invisíveis e alheias aos olhos dos outros, que Martha ( citando Michael Lacroix) chama de ” lirismo verdadeiro”. E foi tomada pelo mesmo sentimento, de um lirismo tão forte, que eu degluti lentamente Belém. Da árvore gigantesca às pessoas sentadas no parque, o almoço despretensioso numa cuia de vatapá, aquela avenida enorme ladeada de mangueiras e o cais que me lembrou a Paris que eu conheço só nos livros.

Mas toda vez que eu falo de voltar a Belém e a listo como uma das viagens da minha vida, não raramente o público que me acompanha me olha como que dizendo que essa não pode ser uma “viagem de verdade”. Enfim, cada qual com sua poesia.

Já experimentei, por exemplo, – provando que levo a sério isso de ter olhos de novidade pra toda e qualquer peculiaridade-, situações em que me comovi com uma lanchonete de estrada que servia suco de couve com limão e um sanduíche com linguiça artesanal. Achei o ambiente tão incrível que talvez eu tenha dito em alto e bom som: “é disso que eu gosto, do glamour de um sanduíche simples e uma lanchonete real, crua. A beira de estrada é surreal! É POÉTICA”. Me senti um pouco Anthony Bourdain naquele programa em que ele conhece os lugares menos glamurosos e, apontando pra eles, mostra como são tão incríveis quanto os restaurantes cinco estrelas em Nova York (como eu amo esse programa. Ele é meio crônica, meio poesia, meio documentário).

No final, eu já me acostumei às pessoas estranhando que eu veja beleza em postos de gasolina de estradas, rodoviárias e suas movimentações, em frutas colhidas do pé, flores e tudo que é artesanal e esteja recheado de histórias…

Como bem nos defendeu Martha (a nós do clube dos intensos): “Tudo isso é gigantesco para quem ainda sabe sentir”.

E você, o que te comove?

14 comentários Adicione o seu

  1. Lunna Guedes disse:

    Me comove um texto me obrigar a uma pausa no meio da tarde para pensar na realidade e observar janelas e portas fechadas ou abertas. Sorrir, bebericar um gole de café {mais um} e decidir que posso abandonar os afazeres para pedir colo porque quero conversar meus autores, quero viver um pouco mais.
    Adorei seu texto.
    Grata

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    1. Lunna, obrigada por pausar pra ler essas linhas. Grata estou eu por ter te alcançado de alguma forma.

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  2. Triccia Araújo disse:

    Que grata surpresa encontrar seu blog… ler seus textos. Lindos! Líricos e tocantes…
    Parabéns! Voltarei mais vezes, com certeza… 🙂

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    1. Triccia, obrigada. Espero que goste sempre! És bem vinda!!!

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  3. Oi…Quero te convidar a curtir a integração do meu site estradadafelicidade.wordpress.com,com meu Twitter @UmaOutrArtista!Tanto do site quanto do Twitter dá para ver mensagem dos dois!

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    1. Obrigada pelo convite. Não tenho Twitter, mas acompanho seu blogue. Obrigada

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      1. Sim,muito obrigada,de coração.Mesmo não tendo Twitter,pode “dar uma olhada” no meu,lá na página.Descobri esse detalhe outro dia e resolvi experimentar,acho que ficou legal o Twitter no blog,né?Beijos!

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  4. As coisas simples da vida ainda são especiais,e sempre serão.Guardo dentro de mim lembranças de momentos preciosos,que aconteceram em simples momentos.Hoje nos preocupamos tanto com dinheiro,sobrevivência,segurança,e outras coisas duras que até nem lembramos dos momentos simples e especiais da vida.Tem gente que nem percebe e ainda brinca com quem tem a sensibilidade e capacidade de perceber estes momentos bons,que aparecem independente de posses,de ter um amor,apenas esses momentos acontecem,de presente para quem sabe reparar e aproveitar.Eu já sofri com esse tipo de gente insensível.Coisas tão simples como ver,da janela da própria casa,a vista,do lado de fora,toda cor de rosa,por causa do sol,no fim de tarde.Coisas tão simples e tão grandiosas como essas me enchem de emoção,alegria e paz.

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    1. Obrigada pelo feedback. Gente que sente é uma raridade mesmo…felizmente há os poucos e bons que guardam instantes preciosos. Obrigada por sua visita!!

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  5. Não sei como é que tem gente que não tem olhos para as boas coisas simples da vida.Acho tão natural que não entendo.Se vc um dia tiver um Twitter,me passe o nome,ok?Já no caso do Facebook,não tenho,não.Pelo menos por enquanto,não.Nas redes,no momento só estou no Twitter.Beijos!

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    1. Também não tenho face. Ando por aqui! Te acompanho!

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      1. Ok!Eu também te acompanho.Vemos nossos posts,conversamos e trocamos ideias,né?Um grande abraço para vc!

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  6. Te acompanho no seu site!!!

    Curtido por 2 pessoas

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