Um Blues para 2017

*ficção com pedaços da realidade 

Eu cheguei à conclusão, enquanto escovava os dentes, de que se a gente ia pegar a estrada, eu teria que levar um livro debaixo do braço. Pensei em qualquer um de capa bonita de que a Clarice  havia se apropriado assim que deixei meu quarto de solteira pra casar. Lá estavam meu Gustavo Flaubert,  o Crime e Castigo em três volumes e alguns outros livros miúdos de capa não menos bonita. Mas foi um desses best-sellers que acabam virando filme que eu enfiei no último minuto na bolsa. Talvez porque a ideia de uma mudança de curso combinasse com a história de uma jornalista que era uma “viajante do mundo”. 

Fazia sete anos que eu tinha cruzado a estrada pra visitar parte da família que mora no Norte. A ocasião não foi das melhores. Era um grande funeral. Todos os amigos do meu tio, caminhoneiros, tias, irmãs, cunhados, sobrinhos estavam lá. A rua parecia um daqueles pátios de postos de gasolina. Quem não sentou na porta da casa, uma calçada larga, se aninhou perto dos caminhões. Eu permaneci no meu lugar o tempo inteiro e de lá tentava adivinhar o que aquelas pessoas haviam deixado pra trás,  imaginando que de algum modo todas elas sentiam a perda do meu tio e lamentavam ele não poder mais voltar pra casa. Mas era pela perda da aventura, da saudade, era por não poder cair na estrada que  elas  lamentavam, era por meu tio não poder desfrutar dos prazeres que as moviam. Elas estavam ali tomando conta de todo aquele espaço, em luto por um sentimento agora perdido, e lá no fundo me parecia que eram orgulhosas de possuírem mais que todos ali o verdadeiro sentido da vida. Não eram as parentes mais velhas, todas em volta da mesa de chá e dos biscoitos açucarados, que eu invejava. Elas estavam ali nos seus noventa anos, falando sobre como ele era um jovem “selvagem” e, no fundo, contando vantagem por poderem desfrutar de um chá de funeral e ele não. Eu via nelas uma ausência de honestidade que não percebi nos caminhoneiros. Eu era um pouco aquelas mulheres, de corpo presente, mas sem alma alguma. Eu estava sendo desonesta comigo mesma, mas sem a ousadia de ostentar uma sobrevida entre uma golada de chá e outra e me entupir de açúcar. 

A essa altura eu acho que o que eu queria me perguntar é se já não estaria eu mesma morta. 

Antes de pegar o vôo pro funeral, precisei organizar uma pilha de cadernetas, e atravessar todo o sofrimento a que professores, pais, coordenadores e alunos se submetem nos finais de anos letivos.  Era a vida mais ridícula que eu estava desempenhando: professora, vinte turmas, cadernetas, avaliações, nenhum final de semana, poucas horas de sono. Como eu suspeitava: eu estava morta.

Carreguei o peso do meu corpo morto pelos corredores da escola, arrumei as malas e peguei um vôo.

No meio do funeral, antes que pudesse reafirmar que me tornara um Brás Cubas de saia filosofando sobre como meu tio, agora morto, esteve mais vivo que eu, aparentemente viva, mas agora oficialmente morta, tive tempo para um outro devaneio de funeral: Como era um alívio poder me livrar desse papel de morta nas férias de dezembro e, pelo menos por alguns poucos dias, acreditar que o ano seguinte  seria diferente. Eu tomaria as rédeas da situação e seria uma professora de Literatura feliz (e viva). Eu leria uns três livros por mês e assistiria a todos os filmes do Oscar e,  no domingo à noite, em vez de preparar aulas e preencher planos, eu vestiria o vestido mais bonito e assistiria a grande festa do cinema Americano. 

Seria genial!

Mas aquelas pessoas, tão livres, ali, lamentando a perda da liberdade de um homem, interromperam esse vislumbre e atestaram a dura realidade: os vermes já me corroíam. Imóvel,  pálida,  sem vida, num caixão vistoso de madeira, rodeada de flores e sendo devorada. Voltei daquele  dezembro com uma missão: ressuscitar.

Por alguns breves anos foi apenas um devaneio de funeral. Mas não seria assim pra sempre. De algum modo a morte do meu tio e aqueles caminhoneiros  me deram vida.

Essa missão martelou minha mente enquanto alguns dezembros desfilaram na minha frente. 

Agora já estamos em um outro dezembro de novo. O ano é 2016. Daqui a cinco dias estaremos em 2017. Logo logo a gente cairia na estrada rumo ao Norte. Depois daquele fatídico e revelador episódio, eu comecei a buscar por mais dias em que a vida fosse ousada, em que houvesse estradas, saudades e que deixar algo pra trás fosse um sentimento mais de ganho do que de perda. Não ser livre é a perda.

Eu nunca contei pra ninguém,  mas aquele era o meu tio favorito e eu o admirava. Ele era como uma canção de Blues,  o lamento pelo que deixou e, ao mesmo tempo, uma gaita estridente porque sabia que estava levando o tipo correto de vida, estava vencendo os dias. Ele usava aquelas botas bonitas com uma calça jeans gasta, um chapéu de viajante do mundo e uma bolsa despretensiosa sempre jogada pra trás do ombro esquerdo. E ele tinha um sorriso livre, desses cativantes. Era o tipo de cara que ficaria sentado horas a fio numa cadeira na beira duma estrada e fitaria a paisagem certo de que não haveria vida melhor em outro lugar.

Era um pouco por ele que eu fazia essa viagem.

Quando eu voltei pra pegar o livro, qualquer livro que fosse comigo, eu queria que ele testemunhasse e atestasse o momento em que eu entraria de verdade num novo ano sem carregar o meu corpo morto. Não era só um ritual de amantes de livros, ou uma daqueles itens que a gente risca da nossa lista de coisas pra fazer quando se viaja. Seria o meu quinto livro só naquele mês. Eu, ele, a estrada. A sensação de deixar pra trás uma vida, ainda que se vá voltar pra ela de novo, estar entrando num novo ano de posse de suas escolhas, estar em paz com elas, era tudo o que eu queria. Enquanto eu escolhia o livro, acho que fui invadida pelo mesmo sentimento daqueles caminhoneiros que estavam ali sentados em grupos em volta do fogão improvisado, alguns em suas redes, outros nas boleias, conscientes de que no outro dia seguiriam a viagem e de que tudo seria imprevisível e que tomariam o curso que se apresentasse a eles: eu só precisava ir. 

Enquanto eu cruzava a cidade rumo ao meu destino e pensava em como tudo havia acontecido desde aquele dezembro, sinto como se tivesse calçado as botas do meu tio, colocado aquele chapéu de vaqueiro, me vestido do sorriso livre e, empunhando a minha gaita, tocasse pra vida um blues sobre como é preciso ser livre e pegar estradas sempre, sejam elas literais ou outras que estejam bem longe de qualquer coisa que te faça sentir como se estivesse gelado, imóvel, num caixão vistoso e rodeada de flores. Eu tinha uma certeza: 2017 seria como pegar estradas, mudar rumos, tomar atalhos e eu nunca mais morreria de novo. 

6 comentários Adicione o seu

  1. Ricardo Cunha disse:

    Que maravilha!
    É gostoso se envolver com esse tipo de escrita e deixar que ela nos leve a qualquer lugar.
    Ao som de um bom Blues, então, nem me fale.
    Lindeza de blog!
    Forte abraço.

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  2. nardele disse:

    Uau. Adorei isso.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Viajei com você nesse texto! Identificação total. Vou virar freguesa. Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada pela visita!!! Também estou sempre lá no seu espaço

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